segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Amber #76 - O pato Dodô e a corrida em comitê.

“Quem é você? Se apresente!”, gritou Liesl, apontando sua arma para Dirlewanger.

“Meu nome é Oskar Dirlewanger, ao seu dispor senhorita. Eu ouvi uns boatos que haviam um tal de Briegel por aqui, pensei em dar um alô pro meu amigo! Mas pelo visto só tem mulheres aqui. Viram um tal de Roland Briegel por aqui?”, disse Dirlewanger.

Alice ficou enfurecida quando ouviu que aquele oficial nazista estava atrás do seu pai. Kovač ao perceber que era Dirlewanger na sua frente, ficou aterrorizado por dentro. Foi caminhando calmamente para longe dali. Anastazja, observadora e perspicaz como sempre, percebeu que o tcheco empalideceu quando ouviu sobre Dirlewanger. Sua mão tremia, mas ele não disse nada, e tampouco expressava o pânico que parecia estar sentindo por dentro. Julgando que ele talvez estivesse se protegendo, Anastazja ficava discretamente observando o local onde o físico sorrateiramente ia.

“O que você quer com papai?”, perguntou Alice, ameaçadoramente.

“Puxa, que felicidade! Vocês o conhecem? Que sorte! Pois então avisa ele que o amigo de sempre dele, Oskar Dirlewanger está aqui. Ele tá ali naquele barraco?”, disse Dirlewanger apontando para a cabana, “Ei, vão lá ver se ele está lá, andem logo!”, ordenou Dirlewanger aos outros três soldados do seu pelotão. Os três soldados não gostaram muito do tom de autoridade de Dirlewanger, e pararam no primeiro passo, voltando o olhar para o capitão do pelotão:

“Ei, não é você quem manda aqui, seu zé-ninguém!”, disse um dos soldados. Mas os três pareciam todos querer ao mesmo tempo exercer a liderança, pois nenhum deles baixou a cabeça pra ninguém, e começaram a trocar insultos entre si. Foi no meio disso que Dirlewanger gritou, chamando a atenção de todos.

“Escuta aqui, seus merdas! É tão difícil assim cumprir uma ordem? Eu sou o pato Dodô aqui, e vocês são um bando de galinhas cagonas e obedientes”, disse Dirlewanger ameaçadoramente, “Se seguirem certinho o que tô mandando, todos vão ser muito bem recompensados!”.

Kovač estava desesperado. Suava frio enquanto continuava pálido, tentando ao máximo não se virar para que seu rosto fosse visto por Dirlewanger. Mas os passos tinham que ser cuidadosos, teria que ser o mais natural possível para que não levantasse nenhuma suspeita.

“Ele não está lá. A Briegel que vocês ouviram falar sou eu, Alice Briegel. Estamos buscando meu pai também, o senhor Roland Briegel”, disse Alice, e nessa hora Dirlewanger expressou um alto: “Isso! Ele mesmo!”, como se confirmasse o que haviam falado há momentos atrás, interrompendo Alice, que retomou o assunto depois de ser cortada de maneira extremamente indelicada por Dirlewanger, “E mesmo se soubéssemos, francamente, o senhor não nos inspira muita confiança”.

“Tá, que se exploda. Matem todos”, ordenou Dirlewanger no momento depois que Alice disse sua última fala, e seus soldados empunharam as armas e apontaram para Liesl, Alice e Anastazja. Antes de puxarem de gatilho, todos ouviram uma ordem de Dirlewanger: “Não, espera, não atirem ainda! Quem é aquele velho ali?”.

Kovač fingiu que não ouviu e continuou caminhando.

“Ei, ei, ei! Vem cá! Você parece alguém que os meus superiores mandaram eu vir atrás! Espera aí, velhote!”, disse Dirlewanger, enquanto descia e corria até Kovač, que não aguentou de medo e olhou para trás. Na hora que Dirlewanger viu seu rosto o reconheceu no mesmo instante, “Não acredito! Posso não ter achado meu amigo Briegel, mas achei o Kovač! Tomaz Kovac! Puxa, se eu te levar eles me disseram que eu teria até mesmo meu batalhão! Enfim vou poder entrar na SS! Vem cá, vamos não vamos perder tempo!”, Dirlewanger agarrou no braço de Kovač e o puxou. O rosto do tcheco mostrava um imenso desespero, enquanto empregava todas suas forças para se soltar:

“Não, senhor, por favor, me solta! Eu não quero ir, eu não posso ir!”, implorava Kovač, mas Dirlewanger parecia não dar a mínima pros pedidos de Kovač, apenas o puxava, por entre as pedras, galhos, como se ele fosse um moribundo, “Liesl, por favor, me ajuda, faz alguma coisa! Eu não quero morrer!”.

“Ei, Dirlewanger, não é?”, disse Liesl, mas Dirlewanger parecia não dar a mínima, inclusive fazendo um sinal para que executassem todas ali, voltando a apontar a arma para elas, “Antes de atirar pode ao menos nos responder o que você tanto queria com o coronel Briegel?”.

Dirlewanger ao ouvir o nome de Briegel virou com um sorriso frio e psicótico para Liesl enquanto continuava a puxar Kovač sem a menor cerimônia.

“Isso não é óbvio? Eu quero lutar com ele! Ele pode ser se safado da outra vez, mas sempre tenho um plano novo pra diversão!”, disse Dirlewanger. Os soldados estavam com as armas engatilhadas prontos para atirar nelas em qualquer momento. Anastazja em pânico fechou os olhos e jogou seu rosto no ombro de Alice, que também com medo de que morreriam ali mesmo também fechou os olhos. Mas Liesl, apesar de machucada pela luta contra Sundermann antes, e também pela corrida pela vida em Varsóvia sabia que tinha que arriscar tudo ou nada.

“Eu sou discípula dele! Você pode lutar comigo!”, gritou Liesl, e nessa hora Dirlewanger parou e a encarou, mandando seus soldados baixarem as armas, “Posso te dar o combate que você está esperando. Ele me ensinou tudo, eu sou a aluna mais avançada dele. Eu sou a luta que você tanto quis com o coronel, mas se eu ganhar, você deixa o Kovač com a gente e dá o fora daqui”.

Dirlewanger sem pensar duas vezes jogou Kovač na direção de Liesl e começou a arregaçar as mangas do seu uniforme.

“Puxa, eu adoro bater em mulheres! O grito de vocês me dá tanto tesão, parece que eu tô metendo forte em vocês quando vocês gritam de dor quando eu bato. É tão bom!”, disse Dirlewanger se aproximando de Liesl, “Vamos ver então se o Briegel treinou você mesmo!”.

“Liesl!! Não faça isso! É maluquice!!”, gritou Alice desesperada. Vendo o estado de Liesl, por mais que Dirlewanger fosse fraco, a luta não duraria muito tempo. Era um perigo imenso.

Oskar Dirlewanger foi então pra cima de Liesl com o punho cerrado. A primeira coisa que Liesl percebeu ao assumir posição de defesa era que ele não parecia ter muita habilidade pra luta. Não se joga com seu corpo assim pra cima do outro daquela maneira, parecia um golpe de um amador.

“Minha nossa, mas a Liesl tá machucada! Isso é loucura, Alice!”, disse Anastazja para Alice enquanto Liesl desviava sem problemas da investida de Dirlewanger, “Ela não tem nenhuma chance contra ele! Você sabe algo sobre ele?”.

“Muito pouco, Anastazja. Não tenho certeza se papai me contou que ele tava em Guernica, eu não me recordo agora. Mas independente disso você tem que ir atrás de ajuda, Anastazja. Eu vou ficar aqui com o Kovač, quero que você vá pra Plosk e procure aquele grupo de poloneses, aqueles que estavam montando aquela guerrilha”, pediu Alice, “A única coisa que tenho certeza sobre esse Dirlewanger é que papai disse que ele é um completo psicopata, e ele não mediria esforços ou ética numa luta! Temos que proteger Liesl a todo custo!”.

“Você é rápida, e ótima na esquiva!”, disse Dirlewanger, que com seus socos desengonçados não conseguia de forma alguma acertar Liesl.

Liesl não respondia nenhuma das provocações. Percebera que Anastazja estava voltando no caminho pra Plosk, talvez para pedir ajuda, enquanto Kovač ficava ao lado de Alice observando tudo. Um certo alívio e felicidade foi sentido por ela.

E então um soco, pesado como uma bigorna, a acertou em cheio no rosto.

Liesl por alguns segundos quase apagou, mas voltou a si, sem chegar a cair, se apoiando em uma árvore.

“Liesl, cuidado!!”, gritou Alice, e Liesl conseguiu se desviar de uma investida de Dirlewanger no último segundo.

“Certo, entendi. Você parecia tão concentrada, e aí você simplesmente por um segundo se distraiu”, disse Dirlewanger, que já estava arfando de cansaço depois de tanto se movimentar e errar golpes em Liesl.

“Você luta muito mal, seus golpes são muito inconstantes e mal colocados”, disse Liesl, enquanto limpava um pouco de sangue que escorria da sua gengiva machucada, “Mas até que pra um magrelo você bate forte”.

“Escuta, eu não luto porcaria nenhuma. Mas eu sempre ganho, e vi que você não tem a mesma frieza e foco na luta que o Briegel tem. Tô basicamente te contando qual vai ser minha estratégia de luta, te dando uma chance de ouro, não acha?”, disse Dirlewanger.

Liesl cuspiu um pouco de sangue no chão e novamente olhou para Dirlewanger. Anastazja, que foi a distração de antes já estava longe. Não havia mais motivo para se perder o foco.

“Agora vou prestar atenção. Aquela polonesa já foi embora, pode deixar que vou acabar com você sem problemas”, disse Liesl, que apesar de considerar seus ferimentos, ainda tinha muito mais habilidade de luta do que o jeito sem treino de Dirlewanger.

Nessa hora Dirlewanger olhou para os outros três homens do seu pelotão e deu uma piscada com os olhos junto de um sorriso tímido. Liesl nessa hora ficou assustada, não sabia o que esperar. Pensou inclusive que essa era uma ordem pra abrir fogo contra elas.

“Sem essa, Dirlewanger! Se você atirar, eu mato o Kovač!”, disse Alice, pegando uma faca e colocando no pescoço de Kovač. É óbvio que Alice não seria capaz disso, mas foi meio que um instinto do momento, sabendo da importância de Kovač para Dirlewanger.

Boa, Alice! Ele disse que quer o Kovač vivo! Assim ele não vai abrir fogo contra a gente!, pensou Liesl ao ver o movimento de Alice, acenando com a cabeça. Talvez Kovač tinha noção que Alice não seria capaz de mata-lo ali, mas Dirlewanger com certeza não sabia o que Alice era capaz. Embora o movimento fosse correto, não era exatamente esse o plano que Dirlewanger tinha em mente.

“Boa tentativa, mocinha. Mas não era isso que eu tava pensando”, disse Dirlewanger, com um tom carregado de ironia, “Ei, camaradas, não faz muito sentido eu ficar aqui ralando e vocês aí sem fazer nada, não é mesmo? Escuta... Vocês já comeram uma pretinha?”, nessa hora Alice arregalou os olhos quando viu que era com ela, “Eu ouvi falar que elas tem bundas e peitos enormes, com uns mamilos macios e gostosos. Dão pra ir lá experimentar e depois me dizerem como foi enquanto eu dou uma surra na pupila do Briegel pra desestressar?”, nessa hora Dirlewanger olhou de maneira sedenta para Liesl, que ao ver as intenções do alemão ficou ainda mais enojada por ele, “Mocinhas novinhas igual você tem cheirinho de doce. Vou adorar arrebentar seu cabacinho, menininha!”.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Amber #75 - O cerco de Varsóvia.

“Por deus! Aqueles aviões estão se aproximando!”, disse Alice enquanto olhava para o céu aterrorizada. Os aviões da Luftwaffe, a força aérea nazista, rasgavam o céu nublado sobre Varsóvia. No alto um combate imenso acontecia entre aviões com a insígnia da cruz negra alemã e outros poucos aviões com o símbolo da força aérea polonesa: um xadrez vermelho, nas cores símbolo da nação polaca.

“Temos que continuar! Vamos!! Não se afastem desse grupo!”, gritava Anastazja, mas o som foi interrompido por explosões que ocorriam a uma distância não muito grande dali. Aviões de bombardeio nazista despejam quilos de explosivos sobre a cidade, causando sons ensurdecedores que se misturavam com o agudo dos gritos da população de civis que apenas lutava para sobreviver no meio daquele inferno.

Entre as explosões era possível ver muito além do que apenas casas sendo destruídas. Conforme as bombas eram jogadas sobre Varsóvia naquela investida decisiva do exército nazista era possível vivenciar uma cena horrenda com detalhes que jamais nenhum filme conseguiria mostrar. Casas e quarteirões inteiros indo pelos ares, corpos de cidadãos poloneses sendo jogados pelo ar mutilados, com o som ensurdecedor das explosões contrastando com os gritos que todas as mulheres, homens e crianças soltavam, seja enquanto fugiam, seja quando uma bomba caía nas redondezas e as matava instantaneamente. Uma verdadeira sinfonia de morte no meio de um espetáculo de carnificina.

Era a terrível Blitzkrieg.

O que acontecia em Varsóvia naquele momento parecia pior do que havia acontecido em Guernica. Misturadas no meio de um grupo de pessoas que corriam entre os destroços do que já foi a capital do país, Alice, Anastazja e seus pais, e Kabanos tentavam correr para os subúrbios da cidade com mais vinte ou trinta poloneses, maioria sendo mulheres e crianças, tentando evitar locais que estivessem com soldados, que já estavam em combate contra remanescentes poloneses que dariam o sangue para proteger sua cidade e seu país.

“Vamos para o outro lado!! Tem pelotões na frente em batalha!!”, gritou Alice quando viu na frente pelotões de poloneses atirando contra soldados nazistas que estavam invadindo Varsóvia por ali. Anastazja mal conseguiu traduzir a orientação de Alice e novamente mais aviões despejavam bombas e mais bombas ao redor delas. As edificações pareciam não aguentar as ondas de choque lançadas pelas bombas, todas trincavam e jogavam estilhaços a uma velocidade incrível.

“AHHHH!!! Minha perna!!”, gritou Anastazja ao sentir algo a atingir. Alice voltou e a pegou pelo ombro sem hesitar.

“Calma, vamos sair daqui e vamos fazer um curativo! Parece que por esse lado a coisa tá mais calma!”, gritou Alice, acalmando Anastazja, que no meio do pânico não conseguia nem mesmo entrar em pânico propriamente. Parecia que a vontade de sobreviver aquele inferno era o que mais a incentivava a correr tanto quanto os outros, apesar do machucado na perna, “Falta pouco, Anastazja! Não temos tropas por esses lados! Não podemos parar!”.

Elas não paravam, mas tudo ao redor parecia conspirar contra. Explosões, tiros, fogo. Tudo parecia interminável. Elas já mal ouviam a si mesmas, parecia que a cidade estava sendo alvo de coisas de vindas de todas as direções: do alto vinham aviões metralhando e jogando explosivos. Dos lados vinham tiros disparados tanto de armas nazistas quanto armas polonesas. Do chão sempre algo desmoronava, ou pó e estilhaços voando nos seus rostos. E carregar Anastazja, que por mais que tentasse não conseguia caminhar era o mais difícil. Alice não tinha lá uma grande aptidão física, e muitas vezes mentalmente se perguntava da onde tirava forças para tal.

No meio de todas aquelas explosões, enquanto corriam pelos caminhos que já foram ruas de Varsóvia, Alice tropeçou em algo. Não chegou a cair, mas ao olhar para trás viu que havia tropeçado no braço de uma jovem polonesa morta no chão. Aquilo a deixou chocada. Ela havia visto apenas de longe o que havia acontecido em Guernica, mas não imaginava que poderia haver tantas vítimas civis, muito mais do que imaginava. Aquele corpo com a boca aberta e uma expressão de desespero devia traduzir bem o que a pessoa devia ter sentido e a dor inimaginável que passou antes de morrer.

“Alice, o grupo está indo sem a gente! Vamos correr!”, gritava Anastazja, tentando tirar Alice daquele momento de divagação, “Ela já está morta, Alice! Não tem nada que podemos fazer mais por ela!”, nessa hora Anastazja agarrou o rosto de Alice e olhou no fundo dos olhos dela, falando de forma que as palavras a tirasse daquele choque de ver um cadáver no chão, “Mas podemos fazer algo por todas aquelas pessoas que ainda estão vivas!”.

O grupo parecia aterrorizado. Mulheres e crianças corriam gritando, não acreditando que estavam vivenciando uma coisa como aquela. Corpos de pessoas se misturavam aos detritos, pedaços as casas e prédios vizinhos caíam aos montes, e todos tentavam proteger suas cabeças com seus braços, numa tentativa de não se ferirem, que muitas vezes até funcionava, mas em outras deixava um imenso machucado em suas cabeças e braços. Alice então começou a correr atrás do grupo, mas logo no final da rua era possível ver mais um combate entre tropas polonesas e nazistas, todos avançando contra os pelotões da Polônia na base de tiros, tanques, carros de artilharia e soldados. Era clara a imensa vantagem do exército nazista, não apenas em número, mas por ter melhores equipamentos, artilharia e tecnologia de guerra.

“Não vão por aí!! Nazistas!! Voltem para cá!”, gritava Anastazja em polonês para o povo. Curioso que pouco antes dela gritar parecia que até mesmo as explosões haviam cessado para que pudesse por meio do seu grito salvar aquelas pessoas. Com os olhos fechados, se vendo sem saída Alice pedia ajuda do seu pai mentalmente. Justo agora que enfim haviam achado uma pista de onde seu pai estava, agora que enfim parecia tão perto! Nessa hora Alice, sem esperanças, virou o olhar para um beco do seu lado direito. No final vira que um caminhão militar polonês havia acabado de estacionar e as visto, e estava correndo para seu socorro.

“Anastazja! São poloneses! Estão vindo pra cá! Olha lá!”, disse Alice, como se as preces para seu pai tivessem surtido um efeito quase que inexplicável. Anastazja ao ver os oficiais poloneses virou e começou a gritar para as pessoas no meio daquela bagunça. Os sons de tiros, canhões e aviões não paravam, mas usando todas as suas forças Anastazja sabia que aquele poderia ser a luz no fim do túnel para todos eles!

“Estamos evacuando os civis, mulheres e crianças! Vocês precisam se salvar, os nazistas estão atacando Varsóvia!”, disse um dos oficiais para Anastazja em polonês, “Por favor, nos sigam e estarão a salvo!”.

Anastazja então, mesmo ferida, encheu os pulmões e gritou com toda sua força:

“Pessoal!! Por aqui!! Temos ajuda!! Venham por aqui! Agora!!”.

E o grupo de pessoas que estava completamente disperso nas esquinas daquele distrito começaram a se juntar conforme ouviam os gritos de Anastazja. Até mesmo pessoas dentro do prédio apareciam. A voz de Anastazja parecia um chamado indicando o caminho até a liberdade. Até fora dos muros daquele verdadeiro inferno que era Varsóvia. Com muita pressa as pessoas se reuniram no caminhão, apesar do desespero e do medo, tudo ocorreu sem maiores problemas.

Em pouco tempo o caminhão já havia dado partida e estavam correndo para fora daquele local, protegidos por poucos soldados poloneses que haviam decidido se sacrificar na batalha do que desistir do seu país que cairia inevitavelmente nas mãos dos nazistas.

“Anastazja, não se esqueça de pedir para o motorista! Precisamos seguir o rio Vístula! Só assim a Liesl vai poder nos achar depois!”, pediu Alice para que Anastazja avisasse o motorista, e ele prontamente as atendeu.

“Ele disse que pode nos deixar em Plock, não fica muito longe daqui”, disse Anastazja depois de conversar com o motorista, “Ele disse que pode ser que Varsóvia não aguente mais depois de hoje, mas ele disse que ainda assim vai voltar e lutar!”, nessa hora Anastazja deu uma última olhada na cidade junto dos seus pais. Aquele lugar não era mais um lar. As chamas, os sons de tiros, explosões e todo aquele pó pareciam sobrepor as lembranças boas do tempo de paz. Varsóvia estava caindo.

“Liesl, por favor, sobreviva!”, pensou alto Alice, enquanto olhava a brutal queda de Varsóvia acontecendo na sua frente.

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16 de setembro de 1939
15h06

“Nenhuma notícia ainda?”, perguntou Alice quando viu Anastazja se aproximando. Com um olhar triste no rosto, Anastazja não conseguiu dizer nada, apenas balançou a cabeça negativamente.

“Oh, Liesl...”, disse Alice com lágrimas nos olhos e levando sua mão no rosto, “Por favor, Deus, faça com que a minha Liesl tenha conseguido escapar desse inferno”.

Anastazja a abraçou de lado, confortando Alice. Seus olhos também estavam em lágrimas.

“Ela vai conseguir. Liesl é mais forte que todas nós, ela vai chegar logo, logo. Não tenho dúvida que vai achar a carta e está vindo correndo pra cá, nos procurando”, disse Anastazja, enquanto Alice permanecia num local tanto próximo do rio que corta Varsóvia, o Vístula, quanto perto de uma estrada que ia até Plock. Com uma manta enrolada na sua cabeça pra proteger do sol, Alice permanecia lá por horas aguardando o momento em que Liesl apareceria por lá. Em um barraco improvisado junto de uma pedra estavam lá Alice, Anastazja e seus pais, e Kabanos. Todos os outros poloneses conseguiram ir até Plock se refugiar da investida nazista, “As pessoas dessa cidade disseram que bombardearam tudo no dia primeiro de setembro. Grande parte da sua população foi evacuada até Varsóvia, por conta da melhor defesa militar. A cidade aqui foi capturada no dia oito, mas as pessoas disseram que nenhum ato antissemita foi colocado em prática. Ao menos não ainda”.

“Devem estar esperando o país cair. Depois disso os judeus daqui estarão entregues à sua própria sorte. Hoje, amigos. Amanhã se Hitler ordenar, sem dúvida vão todos ser mortos sem a menor cerimônia”, disse Alice.

Anastazja ficou ainda um tempo conversando amenidades com Alice, como o que teriam para jantar, que ela e seus pais poderiam fazer para que todos comessem, mas Alice apenas permanecia sentada na estrada observando o leste, em direção de Varsóvia.

Já havia passado mais de uma hora, e Alice ali mesmo sentada acabou agarrando num sono. Ela não havia conseguido pregar os olhos depois das coisas horrendas e o terrível zumbido nos ouvidos depois de ouvir tantas explosões simultâneas. Seu corpo implorava por repouso, e o clima relativamente calmo de Plock permitiu isso.

“Ei, acorda, sua dorminhoca! Pensei que você estaria me esperando acordada. Era o mínimo que esperava de você!”.

Alice acordou num susto. Ao tirar o capuz que a cobria viu ninguém menos que Liesl acompanhada de um velho.

“Ainda bem que vocês deixaram essa cartinha. Desculpa a demora, estava pensando que vocês estavam em Danzig, e eu teria que percorrer esse rio todo!”, disse Liesl ao se aproximar de Alice, que sem dizer uma única palavra pulou na sua amiga e abraçou fortemente.

“Eu pensei que você estivesse morta! Minha nossa! Não sabe como é bom te ver viva, Liesl!”, disse Alice enquanto abraçava Liesl, que soltou alguns gemidos de dor enquanto Alice a apertava. Demorou até que a própria Alice percebesse que sua amiga na verdade estava ferida, “Minha nossa, me desculpa! Você tá ferida? Você tá bem?”.

“Sim, sofri umas pancadas de uns tijolos que caíam do teto, mas são apenas hematomas. Acho que descansar um pouco pode me ajudar a recuperar, isso sem contar aqueles machucados daquele idiota do Sundermann. Ainda tá doendo horrores! Minha nossa, nos filmes parece que não doem tanto!”, disse Liesl, que enfim havia encontrado uma chance de dizer quem era o velho calado que estava com ela, “Ah, verdade, antes que eu esqueça. Alice Briegel, quero lhe apresentar Tomaz Kovač. Um físico nuclear tcheco, vamos ter que levar ele pra um lugar seguro também junto da Anastazja”.

“Briegel?”, perguntar Kovač, ao apertar a mão de Alice.

“Ah, sim, mas eu sou a filha. Também estamos em busca do papai, e olha só, a Anastazja conseguiu decodificar um trechinho da comunicação nazista e descobrimos que o papai está no sul do país! Temos que ir pra lá!”, disse Alice, dando as boas notícias para Liesl, que sorriu ao saber disso.

Nessa hora Anastazja veio correndo da cabana com uma cara apreensiva. Ela parecia carregar más notícias. Apesar de Liesl e Kovač estarem na frente de Alice, Anastazja estava tão eufórica que sequer reparou neles, indo direto até Alice, sem nem perceber que Liesl havia aparecido.

“Alice, minha nossa, más notícias que acabei de ouvir!”, disse Anastazja para Alice, que ergueu as sobrancelhas apontando para Liesl. Quando Anastazja enfim se deu conta que Liesl estava lá deu um pulo e a abraçou, “Liesl, não acredito!! Você tá viva! Puxa vida!”, e Liesl tentando segurar Anastazja, apesar das dores e dos gemidos involuntários, foi salva por Alice que a alertou de que Liesl estava bem machucada e era melhor não exagerar nos abraços.

“Anastazja, calma, chega, ela tá machucada. Menos, menos! Ela tem que repousar!”, disse Alice, pedindo para Anastazja soltar Liesl calmamente. Depois de pedir desculpas para Liesl, Anastazja continuou:

“Ah, nossa, desculpa, foi tanta emoção! Esse deve ser o senhor Kovač, certo?”, disse Anastazja, deduzindo corretamente, “Bom, mas um senhor polonês disse que ouviu de um oficial do exército que a guerra entre a União Soviética e o Japão terminou ontem, com vitória dos comunistas! Está correndo um boato que tropas soviéticas estão se reunindo no oeste da Rússia!”.

“Minha nossa, eu ouvi isso também!”, disse Liesl, confirmando, “Então o pior dos cenários vai acontecer. Depois que os nazistas acabaram com a Polônia, a União Soviética vai tomar o pouco que restou do outro lado do país!”.

“Exatamente!”, disse uma voz masculina desconhecida atrás de Liesl, “Mas é uma pena que depois que o Führer virou amiguinho do Stalin não vai dar pra dar uns tiros em uns comunistas! Vou ter que contentar com vocês mesmas!”.

Quando todas viraram viram que a voz vinha de um oficial nazista que elas até aquele momento desconheciam. Era ninguém menos que Oskar Dirlewanger junto de seu pelotão, o mesmo que havia feito uma armadilha para Briegel em Guernica, anos atrás.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Amber #74 - Afogada na lagoa de lágrimas, Alice foi salva por um ratinho que a levou pra fora de lá.

Liesl corria entre os corredores da imensa Universidade de Varsóvia sozinha. Naquele dia não parecia haver quase ninguém. E numa cidade sendo alvo constante de bombardeios inimigos seria ainda mais difícil que a população universitária conseguisse estudar. Pouquíssimas pessoas estavam lá, e Liesl ainda assim evitava ao máximo que eles a vissem, passando sempre despercebida por detrás, pelo lado ou eventualmente até tomando rotas alternativas enquanto buscava por Tomaz Kovač.

Mas parecia que aquele era seu dia de sorte. Ouviu um trio de alunos que caminhava num dos corredores da universidade comentando algo sobre “Kovač” em polonês. Liesl percebera que eles haviam saído de uma sala isolada no segundo andar do prédio da reitoria. Era exatamente lá que ela procuraria.

Abrindo a porta lentamente, Liesl foi entrando numa aconchegante sala, muito bem decorada, grandes janelas, lindas cortinas e carpetes a se perder de vista. Sofás, mesas, e estantes que se perdiam até o topo, e uma imensa lareira, que estava com seu fogo aceso. Na sua frente havia um homem calvo, com cabelos grisalhos, que parecia alimentar aquele fogo jogando calhamaços de folhas nas labaredas. Ela não havia visto seu rosto, mas pelas características batia muito com a foto de Kovač do dossiê que Briegel havia deixado.

“Você deve ser Kovač”, disse Liesl, se aproximando com a sua Frommer stop mirada nele. O homem ao ouvir se assustou e olhou para Liesl, jogando os três últimos calhamaços de papéis de uma vez só na lareira, fazendo uma chama subir quase que instantaneamente.

“Por deus, um nazista!”, disse o homem, colocando suas mãos na cabeça, “Não vão, não vão levar nada de mim! Eu queimei tudo!”.

Liesl nessa hora também ergueu as mãos, mostrando que não estava lá para prendê-lo ou algo do gênero. O tcheco olhou pra ela sem acreditar. Ainda precisava de mais respostas.

“Não sou uma nazista, se bem que esse uniforme não ajuda muito”, disse Liesl, tentando ganhar sua confiança, “Meu nome é Liesl Pfeiffer, e embora eu pareça ser uma nazista, acredite, estou do lado dos bonzinhos. O senhor é Tomaz Kovač?”.

“Sim, sou eu sim. Mas o que diabos você veio fazer aqui? Se os poloneses te pegarem você vai ser...”, disse Kovač.

“Eu sei disso, senhor. Vou explicar de maneira bem resumida. Vim de Berlim, sou discípula de Roland Briegel, e eu—“, disse Liesl, que foi interrompida por Kovač:

“Briegel?!”, disse Kovač, alto. Ele parecia realmente surpreso, mas Liesl não entendia o motivo.

“O senhor o conhece? O senhor o viu?”, disse Liesl, se aproximando dele, cheia de esperanças de que ele soubesse algo sobre o paradeiro do seu amado.

“Não, na verdade um senhor me pediu para que eu procurasse por um tal de Briegel, que essa pessoa me levaria em segurança daqui. Se você está aqui com certeza pode me levar até esse tal Briegel, não?”, disse Kovač, com um misto de desespero e esperança no olhar. Mas Liesl ao ouvir ficou cabisbaixa, como se não soubesse nem por onde começar a explicar a situação em que estavam.

“Senhor Kovač, quem por acaso disse que era pro senhor procurar o coronel Briegel?”, perguntou Liesl, tentando buscar pistas, “O senhor lembra quem foi, o nome dessa pessoa, como ele era?”.

Kovač por alguns segundos ficou parado, buscando na sua memória quem foi a pessoa que havia lhe dito para buscar Briegel.

“Sim, mais ou menos. Era um senhor meio velho, eu não lembro muita coisa. Acho que se chamava Heiliger, ou algo assim”, disse Kovač, e Liesl anotou num pequeno bloco de notas que tinha no bolso.

“Professor Kovač, como eu disse eu sou pupila do coronel Briegel, e na verdade achamos sua ficha no meio das coisas dele, e achamos que ele eventualmente viria até a Polônia atrás do senhor. Achamos que se encontrássemos o senhor isso nos levaria ao coronel Briegel, pois acreditávamos que ele já estaria aqui com o senhor em Varsóvia”, explicou Liesl, com um ar de certa frustração nas palavras, “Mas o senhor disse que na verdade recebeu ordens para encontrar Briegel, então agora eu não sei. Não sei se espero aqui, ou se levo o senhor em segurança daqui, ou se simplesmente jogo tudo pra cima e volto para casa. Lá fora está um inferno e a cidade vai ser a qualquer momento subjugada pelos nazistas”.

“Então você, apesar de estar dentro das forças nazistas você quer se rebelar contra o regime?”, disse Kovač, “Vocês devem estar malucos! Se bem que faz sentido de alguma forma. O local mais seguro seria exatamente debaixo do nariz deles”.

“Sim. Eu sou judia. Hitler mandou meus pais para Dachau há alguns anos, e em Guernica eu perdi minha prima, a pessoa que eu mais amava e que sempre me protegeu”, nessa hora que Liesl citou sua prima uma memória veio até sua mente. E talvez esse encontro com Kovač não precisava ser algo perdido, especialmente se o tcheco soubesse responder a sua próxima pergunta: “É verdade! Como eu pude esquecer! Acho que só pode ser por isso mesmo que o coronel Briegel estava atrás do senhor, pois o senhor deve ter pistas do que aconteceu com minha prima! Quem estava por detrás do assassinato dela!”, nessa hora Liesl se aproximou de Kovač, colocando suas mãos nos ombros do professor, olhando com muita firmeza nos olhos do velho antes de perguntar, “Por favor, me diga uma coisa: o senhor conhecia uma cientista bélica chamada Margaret Braun?”

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“Minha nossa, tá funcionando!”, disse Anastazja, quando enfim conseguiu colocar as pilhas no seu rádio espião e liga-lo corretamente. O som que ele estava captando pareciam bips perdidos, não parecia sons de vozes nem nada do gênero, “Olha Alice, olha! A-há! Funcionou, funcionou, funcionou!”.

Kabanos estava sentado em cima da mesa, esfregando suas mãos e as cheirando, como se costume. Ficava fazendo esse ritual de maneira repetitiva e exaustivamente, soltando apenas alguns grunhidos enquanto seu nariz soltava uma secreção esverdeada nojenta. Alice ainda estava sentada na poltrona com os olhos fundos e vermelhos, mas ao menos parecia que havia parado de chorar. Era possível ver as gotas das suas lágrimas em sua roupa. Os únicos que realmente pareciam prestar atenção em Anastazja eram seus pais, que ao se aproximarem do rádio não entenderam muito bem o que ele estava captando.

“Filha, não dá pra entender nada do que está saindo. São apenas bips e mais bips, não consigo ouvir a voz de nenhum general ou algo do gênero!”, disse o senhor Maslak. Anastazja parecia ignora-lo, buscando um pedaço de papel de um lápis para poder escrever.

“É código morse, pai. Deixa eu ver se consigo pegar algum trecho do que eles estão falando”, disse Anastazja enquanto anotava as letras que conseguia distinguir de dentro dos bips do morse, “Vamos ver se eu ainda consigo fazer isso”.

Anastazja começou então a escrever várias letras que conseguia captar dos trechos de código morse que estava ouvindo a partir daquele momento. Durante aproximadamente uns cinco minutos ela escreveu tudo o que captava, apesar das longas pausas que eles faziam na comunicação entre si. Seu pai observava o que a filha escrevia no papel, mas não conseguia entender nada. Nada ali parecia ter nexo, vogais faltando em lugares e excessivamente presentes em outros, junções de consoantes que teoricamente não pareciam ter nenhum som, e não conseguia formar nenhuma única palavra com lógica no meio daquela salada de letras.

“Filha, isso é alemão? Pois não tô entendendo é nada!”, confessou o senhor Maslak.

“Não, papai! Isso tudo está em código! Mas eu consigo decifrar, só preciso de tempo. Escuta, vocês teriam um comptômetro aqui?”, perguntou Anastazja, se referindo a uma antiga calculadora mecânica que existia na época. Seu pai, abismado, apenas balançou a cabeça, sem nem entender direito o que a filha estava falando. Após suspirar e balançar a cabeça olhando pro código Anastazja tentou uma segunda opção: “Tá, certo. E aquele ábaco que eu brincava quando era criança? Ele ainda tá por aí?”.

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“Margaret Braun? Engenheira bélica?”, repetiu Kovač ao ouvir a pergunta de Liesl, “Não, infelizmente eu nunca ouvi falar de nenhuma Margaret Braun”.

Aquilo foi como um imenso balde de água fria sobre Liesl. Não havia nenhuma evidência direta entre Kovač e sua prima Margaret, mas acreditava que poderia ser esse o motivo que fez Briegel se debruçar sobre quem era o cientista tcheco. Mas as deduções de Liesl estavam erradas. Kovač não conhecia Margaret, por mais que Liesl perguntasse de novo e de novo não havia nada que ligasse os dois.

“Tá bom, então deve ser por outro motivo então que o coronel Briegel estava te investigando. Tem ideia?”, perguntou Liesl.

“Talvez esse Briegel queria me entregar a Hitler. É o que nazistas fazem!”, respondeu Kovač, rispidamente.

“O coronel Briegel nunca faria isso! Ele está do lado oposto de Adolf Hitler, ele jamais trairia esse ideal!”, disse Liesl, raciocinando, “Mas você disse que existem nazistas atrás do senhor? O que o senhor tem? Tem algo a ver com os papéis que o senhor estava queimando ali?”.

Kovač suspirou. Depois dessa última fala de Liesl dava pra ver que ela realmente não devia saber muita coisa.

“Aquilo que queimei eram estudos. Perigosos demais se caírem nas mãos de nazistas. Se eles tivessem acesso aqueles papéis com os estudos que eu estava fazendo sem dúvida eles venceriam a guerra”, disse Kovač, explicando. Liesl nessa hora arregalou os olhos, incrédula com o que ele falava, mas ainda assim ouvia atentamente, “Me diga, garota, você sabe o que é fissão nuclear?”.

“Não, não a mínima tenho ideia”, respondeu Liesl, “Nunca ouvi falar disso”.

“Assim como muitas descobertas da ciência, foi descoberta por acidente. Dois físicos, e meus amigos, os professores Otto Hans e Fritz Strassmann bombardearam átomos de urânio com nêutrons, e depois viram que haviam aparecido partículas de Bário. Foi uma outra física, chamada Lise Meitner que entendeu o que havia acontecido: o bário é muito menor que o núcleo do átomo de urânio. E se o Bário surgiu é porque o núcleo do urânio explodiu”, disse Kovač, nessa hora com uma imensa empolgação na sua voz, “Desde a antiguidade diziam que átomos não poderiam ser divididos, e o que fizeram poderia revolucionar o mundo! Poderíamos criar energia, tratamentos médicos, melhorar a vida dos seres humanos ou...”, nessa hora o rosto de Kovač ficou com uma expressão cansada e triste.

“Ou o quê?”, perguntou Liesl.

“Armas tão poderosas que a humanidade jamais poderia imaginar que existiriam”, disse Kovač, com um ar tristonho.

“O quão poderosas?”, perguntou Liesl assustada, “Poder de dez, vinte, trinta toneladas de TNT?”.

Kovač se aproximou de um quadro negro da sala. Lá ele escreveu 6.5 com um giz.

“Acredito que conheça a maior bomba já produzida, a Grand Slam”, disse Kovač, apontando para o que ele havia escrito no quadro, “Ela tem o poder de 6.5 toneladas de TNT. O poder de destruição que estamos falando que podemos alcançar com a fissão nuclear é um pouco maior que isso”, disse Kovač escrevendo no quadro.

Liesl ao ver o número que ele escreveu se assustou tanto que ao andar pra trás quase tropeçou.

“Acreditamos que a destruição seria a de aproximadamente dez mil toneladas de TNT”, disse Kovač, apontando pro número dez mil no quadro que ele havia acabado de escrever.

“Impossível! Isso destruiria uma cidade inteira, ou até mais!”, disse Liesl, “Quem mais tem o conhecimento para fazer tal armamento?”.

“Umas poucas pessoas. Eu sou muito amigo de Leo Szilard e também de Albert Einstein. Mas eles conseguiram fugir, assim como tantos outros. Infelizmente conforme as opções de quem poderia construir foram buscando refúgio, os que não eram tão proeminentes no assunto foram ficando para trás. Mas ainda assim eu tenho um conhecimento que poderia ser valioso para o Führer”, disse Kovač, com um ar de tristeza na sua voz, “Ouvi falar por aí que Hitler queria invadir a Polônia pra agregar territórios ao Reich, mas isso na minha opinião é uma grande mentira”.

“Impossível”, disse Liesl, sem acreditar, “Quer dizer que você é...”.

“Sim. Acredito que um dos motivos de Adolf Hitler ter invadido a Polônia era pra me capturar, antes que eu assim como tantos outros fujam e busquem refúgio da Alemanha nazista”, disse Kovač.

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Havia passando já quase meia hora. Anastazja estava com várias folhas, todas cheias de cálculos e números que ela anotava depois de consultar o ábaco e mexer suas pedras pra fazer as contas. O pai dela não entendia como aquele monte de números se tornariam letras, mas acreditava no que a filha parecia fazer, pois ela parecia estar completamente compenetrada. Kabanos sentou ao lado de Alice, ele parecia estar com coceira nas costas. Alice, mesmo em prantos, esticou suas mãos e começou a coçar as costas de Kabanos, que gemia de felicidade ao sentir o alívio da coceira que estava sentindo nas costas.

“Filha, tem um pouquinho de sopa aqui. É típico daqui, você vai gostar e te dar uma animada!”, disse a senhora Maslak, mãe de Anastazja, entregando uma pequeno pote de vidro com uma sopa que mais parecia um vinho, de tão vermelha.

“Desculpa, senhora. Acho que não quero nada alcoólico agora”, disse Alice negando cordialmente a sopa.

“Ah, não é vinho! É vermelha assim pois é feito de beterraba. É até um pouquinho doce, você vai gostar!”, disse a senhora Maslak, colocando uma colher para Alice provar. Ao colocar na boca Alice achou aquilo extremamente revigorante. Anos mais tarde descobrira que o nome daquela receita era “barszcz”, e era típica e muito popular naquele país. Alice ficou quietinha ao lado de Kabanos, que estava praticamente cochilando enquanto recebia as gentis coçadas nas costas de Alice. Quando já estava quase no fim do pote deixou do lado e se aproximou de Anastazja, que estava completamente imersa naquele monte de papéis e cálculos.

“E então, Anastazja? Você parece compenetrada”, disse Alice, chegando por trás de Anastazja. Seu pai estava ao lado da filha, e quando viu Alice arregalou os olhos e olhou pra filha, como se estivesse surpreso com o que a garota sabia fazer, “Conseguiu decifrar alguma letra?”.

De início Anastazja não respondeu. Alguns segundos se passaram dela focada nas suas contas e ela enfim conseguiu decifrar uma letra.

“Na verdade sim! Só preciso juntar as letras que eu consegui aqui, e aqui, e aqui, e aqui...”, disse Anastazja, tirando sempre uma letra que saía da conclusão de uma folha de cálculos que ela fazia. Alice observava cada uma das letras se unirem e formarem sílabas. E depois o conjunto de sílabas formarem palavras. E o conjunto de palavras formarem frases, “Chega de ficar nesse mar de lágrimas! Isso aqui vai ser como uma brisa de esperança no meio dessa tristeza! Mesmo que seja uma brisa fraca como a de um mero leque”.

Alice se aproximou das anotações de Anastazja e quase caiu de costas, tamanho o susto que levou com que leu:

-IQUEM-ATENTOS-AO-SUL-BRIEGEL-FOI-ENCONTRAD-

“Briegel?”, disse Alice, baixinho sem acreditar. Enfim seu rosto não estava mais com aquela cara tão abatida, e ela parecia enfim ter recobrado a esperança, “Papai está indo ao sul? Vamos pra lá então o mais rápido possível!”.

Alice então escreveu em um papel as instruções de onde iria para Liesl caso voltasse para aquela casa. Elas não poderiam perder mais nenhum segundo. Era possível ver ao longe que o exército nazista estava se aproximando, e que os aviões de Luftwaffe já eram visíveis, prontos para tornar Varsóvia o inferno na Terra.

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