sexta-feira, 23 de junho de 2017

Amber #61 - Quando o mágico pede para desaparecer.

10 de setembro de 1939
20h10

Hermann Weigl era um jovem de dezoito anos. Era também um dos muitos que pareciam ser o estandarte da nova juventude nazista que estava nascendo naquela época. Weigl era um bom garoto, apenas estava seguindo a ideologia errada. Muito obediente, conquistou seu espaço na SD depois de se destacar durante vários anos consecutivos na Juventude Hitlerista, a Hitlerjugend, um braço nazista para cultivar os preceitos de Adolf Hitler com a juventude da época, criando pessoas centradas no ideal da nacional-socialista.

Já estava tarde da noite daquele dia, e muitas pessoas já haviam deixado o escritório da SD. Porém Weigl ainda tinha muita papelada pra organizar, e decidiu ficar até um pouco mais tarde. Seus pais, embora fossem alemães e completamente arianos, não concordavam em ver o filho servindo tão próximo ao regime. Seus pais eram um dos muitos cidadãos alemães que foram obrigados a se calar do que falar algo contra Adolf Hitler.

Afinal o custo de uma opinião no meio de uma ditadura em geral é a própria vida.

“Weigl? Você ainda tá aqui?”.

O jovem Weigl no fundo tinha um bom coração. Talvez de tanto ter sofrido lavagem cerebral pelos discursos recheados de caretas de Adolf Hitler ele tenha criado uma visão distorcida, mas incrivelmente pura, do ideal do Führer. Ele não conseguia fazer mal a ninguém. Mas não acreditava que matar ou espancar judeus fosse errado, afinal, eles não eram dignos de serem chamados de humanos. Mas o fato de achar estar correto lhe fazia impedir de ver o quão terrível era aquela visão de mundo. Weigl não tinha um mal puramente calculista no coração como tantos outros chefões nazistas. Ele era uma dessas pessoas que estava tão impregnada com as leituras da autobiografia de Hitler, o Mein Kampf, que acreditava que aqueles conceitos de supremacia ariana que estava escrito lá eram verdade. E não via mal nenhum nisso.

“Coronel Briegel?!”, disse Weigl assustado. Ele tinha uma imensa admiração por Briegel, mas nem tinha ideia dos planos de Briegel de derrubar Hitler ou suas ideias anti-nazistas, “Pensei que o senhor já havia voltado! O que o senhor tá fazendo aqui?”.

“Sim, na verdade já estava de saída já”, disse Briegel se aproximando da mesa de Weigl, “Muita papelada?”.

“Sim, muita”, disse Weigl. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, e Weigl avançou na conversa ao mesmo tempo que Briegel: “O senhor pod--“.

Totalmente sem jeito depois de ter falado ao mesmo tempo que Weigl, Briegel gentilmente pediu pra ele prosseguir, gesticulando com a palma da mão.

“Por favor, diga Weigl. Você primeiro”, disse Briegel, cordialmente.

Weigl idolatrava Briegel. Ouvia as histórias, o jeito que ele sobreviveu em Guernica, as façanhas heroicas, e nunca conseguia ver que debaixo de todo aquele endeusamento que ele dirigia ao Briegel havia uma pessoa de carne e osso. Com todas as virtudes, defeitos, e sem nenhum daqueles atos fantásticos que ele havia ouvido de boatos. Embora Briegel desmentisse tudo, o garoto via Briegel com a certeza de na sua frente ver um ser em apoteose. Um ser humano que desafiava até mesmo os deuses.

“Eu fiz uma carta”, disse Weigl, tirando da gaveta, “Fiz especialmente pra Liesl. Será que o senhor poderia entregar e ela?”, ao mostrar a carta pra Briegel, Weigl estava com as mãos tremendo.

Briegel pegou a carta e colocou no bolso. Ele gostava de Weigl, afinal era um garoto gentil e trabalhador. Não parecia gostar de brigas, e tinha um futuro extremamente promissor. Só havia um problema que mudava tudo: Liesl era metade judia. Embora Briegel houvesse tomado todos os cuidados para que Liesl mudasse de nome para não levantar suspeitas, era claro que esse sentimento que Weigl sentia por Liesl era um amor impossível. Porém, Weigl do jeito que era fiel aos ideais nazistas, nunca poderia nem imaginar que Liesl era metade judia. Jamais. Se talvez ele não fosse um desses “estandartes da juventude nazista” como era estampado no seu rosto, sem dúvida Briegel daria a maior força para que ele ficasse com Liesl. Ela já era uma mulher, e merecia um cara como ele – tirando o fato de ser nazista, claro.

“Tudo bem, eu entrego sim”, mentiu Briegel. Ele sabia que Liesl sabia que Weigl tinha sentimentos por ela, mas ela própria sempre pediu pra Briegel a proteger dele, já que naquela época dificilmente uma pessoa declararia os sentimentos em algo não arranjado por pessoas mais velhas, “Então eu gostaria de aproveitar e te pedir um favor também”.

Weigl abriu um sorriso de bochecha a bochecha. Ele sempre sonhou em ser útil para o cara que lhe havia ensinado tudo. É verdade que Weigl era um dos muitos agentes que haviam recebido o treinamento de Briegel e Schultz. O que nenhum deles sabia era que o que Briegel e Schultz os ensinou era algo bem superficial, nem mesmo 10% da capacidade de um agente da Inteligência que os dois amigos tinham. Era uma forma de passar o tempo sem criar agentes muito qualificados trabalhando em prol do Terceiro Reich. Para as pessoas de fora eles eram a nata da Inteligência. Mas para Briegel e Schultz eram piores que muitos iniciantes na arte da espionagem.

“Weigl, eu preciso que você me faça um favor, uma coisa que só você é capaz de fazer”, pediu Briegel. A reação de Weigl era um misto de surpresa com determinação em fazer qualquer coisa que seu ídolo pedisse. Briegel depois prosseguiu: “Preciso que você me faça desaparecer do mapa”.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Amber #60 - Sorriso

Tsai ficou vermelha depois da fala de Schultz. Por um momento Schultz observou as bochechas dela ficando vermelhas, mas achou que era por conta da cor púrpura que o pôr-do-sol estava tingindo tudo o que estava ali. Foi aí que ele percebeu que realmente ela tinha ficado vermelha, virando o rosto para o lago que ele percebeu que ela realmente havia ficado enrubescida.

“Ah, minha nossa, desculpa!”, disse Schultz, que também ficou envergonhado por ter feito Tsai ruborizada, “Sinto muito, juro que não foi minha intenção”.

“Está tudo bem”, acalmou Tsai, “Gostei da sua fala. Pelo visto você não é um idiota qualquer”.

Schultz ficou quieto. No fundo encarou aquilo como um elogio. Tsai prosseguiu:

“Eu nasci em Xangai, há vinte e oito anos”, disse Tsai.

“Puxa, não parece!”, Schultz tomou um susto, “Você mal parece ter vinte!”.

“Obrigada”, agradeceu Tsai, baixando a cabeça na maneira oriental, mas ainda assim sem sorrir, “A família do meu pai eram parentes do ‘Generalíssimo’, e por serem oficiais do exército, queriam que seus filhos seguissem os mesmos passos. Eu tive um irmão mais velho, logo seria ele quem continuaria defendendo a República Chinesa, ele teria sido treinado para a nova geração de nacionalistas, lutado ao lado da Kuomintang, e outras coisas”, disse Tsai, pausando.

Schultz conhecia o Kuomintang, o partido nacionalista chinês. A China, apesar de estar em guerra contra o Japão naquele momento, estava enfrentando uma dura guerra civil que havia estourado quando aconteceu um grande massacre em Xangai, onde nacionalistas mataram centenas de comunistas e antiesquerdistas, temendo um golpe de esquerda pra dominar o país. A Guerra civil oficialmente havia começado em 1927, dividindo o povo chinês, e só viria a acabar com a vitória de Mao Tsé-tung em 1949, estabelecendo a República Popular da China.

“Generalíssimo?”, perguntou Schultz.

“Eu o chamo assim, ouvi falar que é assim que se chama a patente militar dele para vocês do ocidente”, explicou Tsai, que depois deu mais detalhes: “Acho que talvez vocês conheçam mais pelo nome real dele, Chiang Kai-shek”.

“O quê? Esse generalíssimo?”, disse Schultz, boquiaberto, “Minha nossa, esse aí dispensa comentários. É um herói pra esses lados, é claro que conheço. Só não conseguia acreditar que você estava falando realmente dele”.

Tsai balançou positivamente a cabeça e voltou seu olhar para a correnteza do rio.

“Mas você disse que ‘tinha’ um irmão mais velho. Não me diga que ele...”, disse Schultz.

“Ele sempre teve uma saúde frágil. Por ironia do destino o filho que deveria ter sido uma pessoa forte quanto crescesse, acabou falecendo decorrente de uma simples gripe quando tinha uns sete anos”, disse Tsai, “Eu tinha apenas seis e foi um choque imenso, fiquei muitos dias, semanas, meses triste. Meu irmão era meu melhor amigo. Achei que poderia preencher o vazio de não tê-lo comigo se eu cumprisse o que lhe havia sido destinado”.

“Entendi. Então você de alguma forma decidiu tomar o lugar do seu irmão, e entrou pro exército”, disse Schultz.

“Exato. Estudei muito, com professores de outros países. Aprendi inglês, alemão, e francês. Isso sem contar as línguas daqui da região, como chinês, japonês e coreano. Fui treinada pelos melhores soldados, espiões e generais. Os homens que treinavam comigo viviam me comparando com a Hua Mulan”, disse Tsai, se referindo ao famoso conto que a Disney tornou famoso atualmente.

“Hua Mulan? O que raios é isso?”, perguntou Schultz.

“Ah, é um conto idiota daqui, deixa pra lá”, disse Tsai, que depois prosseguiu, “Eu e meu pelotão lutamos na batalha de Nanquim, dois anos atrás. Mas os japoneses eram mais fortes, mais organizados, e com um armamento muito superior do que o que tínhamos. Fomos completamente massacrados. E depois...”.

Tsai ficou quieta, não conseguiu completar o que ia dizer. Schultz continuava buscando na sua memória o que sabia sobre Nanquim. Foi nesse momento que enfim ele se recordou.

“Por deus... Sim, lembrei agora, eu li nos jornais!”, disse Schultz, “O estupro de Nanquim?! Não me diga que você estava lá?”.

Os olhos de Tsai se encheram de lágrimas.

“Quando fecho os olhos e me lembro, parece que foi ontem. Via corpos por todos os lados sendo jogados nos rios, gritos de dezenas de centenas de mulheres sendo estupradas e mortas, sabe? Japoneses pegavam espadas e ficavam competindo pra ver quem arrancava mais cabeças de chineses capturados. Pessoas capturadas, sem direito de defesa!”, nessa hora Tsai virou o rosto pra Schultz. Lágrimas caíam do rosto dela, “Eu nunca vi tamanha covardia. E eu fui salva por pouco pelo meu capitão, que na época sacrificou sua própria vida pra salvar a minha, e consegui fugir com o restante do meu pelotão daquele inferno”.

Schultz não sabia o que dizer. Se fosse outra mulher com certeza ele ofereceria seu ombro, e provavelmente passaria a mão na bunda dela. Mas Tsai era diferente. Ela não conseguia pensar em nenhuma dessas coisas quando estava do lado dela. Ele nunca havia sentido algo assim antes, ou talvez sabia exatamente o que sentia, apenas havia trancado essa sensação no fundo do seu coração, sem saber como descrevê-la.

Tsai se encolheu entre as suas pernas e começou a chorar. Schultz ao seu lado fez um único gesto, colocando a mão no ombro dela, a acariciando, tentando confortá-la de certa maneira.

“Gongzhu? Gongzhu?”, dizia uma mulher chinesa com um bebê de colo que andava ali, chamando Tsai. Ela estava preocupada pois vira Tsai em prantos sentada na margem do rio.

Schultz vendo que Tsai estava encolhida em seu choro virou pra chinesa e disse uma das únicas coisas que ele achou que poderia dizer:

“Daijobu!”, disse Schultz. Em japonês isso era algo como ‘está tudo bem!’. Mas obviamente era japonês e a mulher chinesa não entendeu nada.

Nessa hora viu que o choro de Tsai parecia se confundir com risos.

“Ah, seu idiota! Isso é japonês! Ninguém vai entender isso, e não é a mesma coisa!!”, disse Tsai, rindo alto. Ela virou o rosto e sorriu pra Schultz. Foi o primeiro sorriso que ela deu pra ele, e aquela memória ficaria na sua mente para todo o sempre. Entre os risos Tsai falou com a mulher e a disse em chinês que não havia problema, que estava tudo bem.

“Ok, perdão, princesa! Aceito receber umas aulas de chinês. Mesmo em japonês eu só sei uma palavra ou outra!”, disse Schultz.

“Escuta, vamos para Nanquim sim. E depois vamos pra Coréia, vou junto do meu esquadrão levar vocês”, disse Tsai, com uma expressão bem mais serena no rosto depois de rir tanto, “Mas precisamos nos preparar para isso. E acho que você também pode enriquecer o pessoal daqui com as coisas que você sabe fazer. Treinamento nunca é demais, e meus amigos do meu pelotão são os melhores de toda a China”.

“Puxa, então aceito o convite. Por quanto tempo? Um mês?”, perguntou Schultz.

“Sim. Em um mês podemos partir para Nanquim. Não sei se seu fotógrafo vai estar vivo, mas podemos arriscar”, disse Tsai.

Os dois voltaram para o alojamento onde estava Eunmi. Tsai estava com um rosto bem mais sereno, embora a sua necessidade de sempre estar séria por conta do seu cargo não a permitia ser exatamente muito amistosa. Eunmi já havia acordado do seu cochilo, e estava com um jornal em mãos.

“Oh, alemão? Como vocês conseguiram isso?”, disse Schultz, se aproximando de Eunmi. Aproveitou então pra dar uma rápida olhada nas notícias do jornal, e ficou abismado com o avanço das tropas alemãs sobre a Polônia, “Puxa, a coisa tá feia por lá. Espero que estejam todos bem”.

“Ah, já voltaram?”, disse Eunmi, baixando o jornal pra ver Schultz e Tsai, “Eu desisto, é muito difícil ler esse alfabeto. E vocês ainda usam essas letrinhas que vêm não sei da onde”, disse Eunmi apontando pra uma letra beta que estava no meio do texto, muito usada no alemão daquela época. Com raiva ela jogou o jornal de lado, e Schultz o pegou para ler.

“Conseguimos esses jornais com alguns informantes. É de alguns dias atrás, então não estranhe. Talvez ainda ajam notícias atrasadas”, disse Tsai.

“O QUÊ?! Não acredito! Só pode ser brincadeira isso!!”, gritou Schultz. Todos no local olharam para ele assustado.

No jornal havia uma pequena nota em uma das páginas internas. A nota dizia: “Roland Briegel, agente da SD, encontra-se atualmente desaparecido”.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Amber #59 - Só podemos esperar bondade das pessoas que são realmente fortes.

Schultz ficou pensando. Ele sabia que havia ouvido falar algo sobre Nanquim quando ele estava na Alemanha ainda, que algo havia acontecido na cidade. Mas nessa hora estava tentando buscar na sua mente. No fundo ele queria impressionar Tsai, como se ele fosse alguém realmente inteligente. Mas no silêncio imenso que se sucedeu quando Tsai disse que era em Nanquim, a única pessoa que se manifestou foi Eunmi.

“Nanquim... A cidade que foi dizimada pelos japoneses?”, disse Eunmi, que conhecia bem a história, “Ouvi falar que coisas horríveis aconteceram por lá ano passado”.

Schultz reparou rapidamente que o punho de Tsai, apesar de baixo, ficou cerrado, como se ela estivesse se sentindo mal por ouvir sobre Nanquim. Seu rosto, que sempre estava sério, estava expressando um certo repúdio depois de entrar no assunto.

“Me desculpe, eu esqueci. Tantas informações, acho que me embananei”, disse Schultz, tentando deixar a conversa mais leve, “Você parece meio tensa em se lembrar de Nanquim, Tsai. Algo aconteceu lá?”.

“É óbvio que aconteceu”, e Tsai, mesmo respondendo de forma rude e com o rosto com raiva, simplesmente se virou e saiu de lá. Tanto Schultz quanto Eunmi não entenderam o que estava acontecendo.

Algumas horas se passaram, Schultz nesse meio tempo foi tomar um banho e comer algo. Havia um grande preparo das tropas. Aparentemente as tropas japonesas iriam invadir Changsha depois de poucos dias. Ao dar uma espiada no alojamento onde estava Eunmi, ao abrir uma fresta da porta via que ela dormia de barriga pra cima, completamente relaxada, como não devia fazer há muito tempo.

Schultz nessa hora sorriu. Eunmi era uma moça bem jovem. E provavelmente assim como Liesl havia passado por muita coisa. Mas naqueles momentos era interessante ver que mesmo apesar de tudo ainda havia espaço para relaxar e dormir como um bebezinho. Talvez no meio ali das tropas chinesas não havia lugar mais seguro para ela ficar do que ali.

Trajando uma simples camisa branca de algodão com suspensórios e uma calça cáqui, Schultz caminhava na borda do rio Xiangjiang, que cortava Changsha. Sentada em uma pedra olhando para a água estava alguém que de costas ele havia reconhecido. O sol já estava se pondo, então ele resolveu se aproximar.

“Se importa se eu me sentar aí?”, perguntou Schultz. Tsai ao virar o rosto viu que era ele, mas não respondeu. Schultz esperou alguns segundos e ainda assim sentou ao lado dela, “Eu tenho muitas perguntas, mas acho que você ainda deve ter algumas dúvidas. Será que podemos conversar?”.

Tsai ficou calada e puxou ar, colocando a mão na sua testa, como se não acreditasse que teria que conversar com Schultz, que era ela nem conhecia há pouco tempo atrás.

“Você é um espião?”, perguntou Tsai.

“Sim, de uma forma ou de outra”, disse Schultz, gesticulando com as mãos, “Oficialmente sou um agente da Inteligência nazista. Acho que por mais que eu tente me livrar disso, isso sempre vai vir atrás de mim. Mas eu não apoio Hitler de forma alguma. Me juntei ao meu melhor amigo, e estamos tramando derrubar ele do cargo. Apenas não sabemos ainda como”, nessa hora Schultz olhou nos olhos de Tsai. O poente refletido em seus olhos azuis tinham um cor linda que Tsai nunca havia visto. Uma mistura de azul com laranja, cores complementares, e no meio disso tudo ela conseguiu ver a real intenção dele, “Até que um dia fui abordado por uma coreana que, pasme, ela aprendeu em um mês a falar alemão, pedindo pra eu ajudar ela a se vingar de um capitão japonês que matou o noivo dela”.

“Uau, que história”, brincou Tsai. Ela estava começando a ver algo de bom no alemão.

“E hoje atualmente meu endereço é a cidade de Changsha, mas eu prometi que a levaria para a Coréia. E promessa, bem...”, nessa hora Schultz deu um sorriso, “Promessa é dívida”.

“Parece que nossos povos compartilham do mesmo conceito de honra. Realmente é louvável”, disse Tsai.

Ficou um breve silêncio entre os dois, apenas quebrado pelo som da correnteza na frente deles. Schultz achou que era um bom momento de ele fazer algumas perguntas agora.

“E você? Qual sua história?”, disse Schultz. Quando Tsai abriu a boca pra falar ele complementou, falando antes dela: “E, claro, porque você ficou daquele jeito quando falamos de ir até Nanquim?”.

Tsai viu que seria bom compartilhar sobre ela com ele, não apenas por educação, mas também para criar um laço mútuo de confiança.

“Bom, como você sabe, meu nome é Tsai Louan”, nessa hora Tsai escreveu na terra molhada de frente do rio os caracteres chineses do seu nome, usando um graveto. Ela decidiu então explicar o que cada um dos três caracteres significavam: “Tsai é o meu sobrenome. Louan, onde o ‘lou’ significa gentil, e o ‘an’ significa seguro. Os nomes asiáticos sempre possuem um significado, uma característica. Os pais que escolhem depois que nós nascemos, e dizem que inevitavelmente acaba influenciando por toda a nossa vida”.

Schultz achou aquilo incrível. Os caracteres foram escritos com uma letra muito bonita, e isso refletia bem a personalidade dela. Embora até aquele momento só havia conhecido o lado mais durão da Tsai, viu com a precisão da caligrafia o quanto ela era gentil, suave.

“Minha primeira impressão que tive de você era de uma pessoa bem fria. Mas vendo você escrevendo, os movimentos são realmente lindos, gentis e suaves. Dá pra entender o porquê de você ser tão forte”, disse Schultz.

“Foi uma péssima cantada, senhor Schultz. Você disse que os movimentos são gentis e suaves, e depois você diz que eu sou forte. Ou eu sou uma coisa, ou eu sou outra”, disse Tsai, novamente fazendo uso do sarcasmo, beirando o rude.

“Eu acho que na verdade são duas coisas bem complementares, na verdade”, disse Schultz, com muita franqueza. Talvez com outras mulheres ele sabia que provavelmente nesse momento já a estaria agarrando e as beijando, mas com Tsai havia algo que ele não sabia exatamente o que era. E francamente ele tinha um pouco de medo do que sentia. Porém ele não precisou nem mesmo encostar um dedo em Tsai para ganhar admiração dela com a sua próxima frase: “Só podemos esperar bondade das pessoas que são realmente fortes. Pois uma pessoa fraca, no primeiro e menor obstáculo da vida, usaria isso como desculpa para praticar o mal. É nisso que acredito”.

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