terça-feira, 28 de novembro de 2017

Amber #93 - EXTRAÇÃO.

Chen estava já na frente, armando pequenos explosivos na porta da casa de Chou Xuefeng. Schultz foi na frente, e o viu lá. Ele mal havia conversado com ele, e não sabia lidar com ele pelo fato dele ser surdo. Por um momento preferiu evitar um eventual contato, mas bem na hora que ele estava indo se virar para dar meia volta, Chen se virou e os dois se viram.

De início Schultz ficou meio desconcertado. Os dois ficaram se encarando e um gelo imenso surgiu entre os dois ali, a poucos metros de distância, em silêncio e sem graça, encarando um ao outro naquela rua deserta e escura à noite. Sem saber como reagir, Schultz ficou parado. Mas Chen, mais maduro, deu um pequeno sorriso pra Schultz e se virou pra continuar seu serviço.

Schultz viu então que aquilo tudo era besteira, e se aproximou de Chen. Aquele sorriso era sinal de que ele bem mais simpático do que imaginava. Ao se aproximar de Chen, Schultz se agachou do seu lado e começou a ajuda-lo. Quando Chen percebeu que Schultz estava lá do seu lado foi a vez de Schultz dar um sorriso simpático para o chinês que ele praticamente desconhecia.

“Acho que a gente nunca chegou a conversar muito, né?”, disse Schultz, tomando cuidado para não falar alto. Chen não havia se virado para Schultz, logo fez cara de quem não entendeu, e fez um gesto para que ele repetisse, e alemão repetiu a mesma coisa, gesticulando bastante e abrindo bem a boca, para que Chen eventualmente pudesse compreender, mas ainda manteve o tom baixo para não denunciar seu local para Chou Zuefeng ou os militares japoneses dos arredores.

“É verdade. Mas não pense que eu sou antipático. Apenas sou uma pessoa mais introspectiva”, disse Chen, e Schultz ficou surpreso! Era uma das poucas vezes que ele havia ouvido a voz de Chen, que era bem grave. Uma voz que contrastava com sua aparência frágil e baixa estatura. Ainda surpreso em estar trocando palavras com o chinês, Schultz não sabia o que responder. Foi Chen que prosseguiu: “A minha esposa já fala bastante por nós dois, haha. Então eu prefiro não incomodar. Sou uma pessoa um bocado tímida também”.

“Tímido? Nossa, não parece. A gente nem teve como conversar, e esqueço que você não é totalmente surdo. Acho que no fundo é um preconceito besta que eu tenho, você entende perfeitamente o que digo”, disse Schultz, da mesma maneira que antes, gesticulando e abrindo bem a boca pra falar para ajudar Chen a entende-lo melhor. De fato funcionou, pois Chen sequer pediu pra ele repetir.

“Eu sou bom em leitura labial. Eu meio que sempre fui antes, eu era quase que um espião pra decifrar conversas de longe, usando binóculo, apenas fazendo leitura labial para a Gongzhu. Não precisa gesticular tanto, senhor Schultz. Consigo entender mesmo se você fizer um movimento mínimo de lábios”, disse Chen, dando uma piscadinha. Schultz então se surpreendeu. Pensava que Chen era uma pessoa perdida no grupo, uma pessoa que não falava muito e ouvia nada. Uma pessoa que apenas servia para explodir as coisas e só. Mas no fundo Chen sabia exatamente tudo o que estava acontecendo ao seu redor, mesmo que não conseguisse ouvir com os ouvidos. Ele ouvia com os olhos, por meio de uma leitura labial avançadíssima.

“Cara, incrível, mudou completamente o que pensava sobre você, pra melhor. Isso aí é pra quê?”, perguntou Schultz, apontando para os explosivos na porta. Eram pastilhas, não pareciam capazes de grande coisa.

“É uma coisa que criei. Funciona para arrombar portas, mas com explosivos. A explosão é relativamente baixa e apenas estoura a porta, permitindo a gente entrar”, explicou Chen, apontando para as pastilhas explosivas coladas na madeira da porta, perto da fechadura e dos trincos, “O Huang era ótimo com fechaduras, mas infelizmente ele não está aqui. Então vai ser do meu jeito mesmo, a Gongzhu permitiu, apesar do perigo do barulho”.

“Invenção sua?”, disse Schultz, olhando mais de perto as pastilhas, “Você pode ser quietinho, mas é bem inteligente!”.

Chen deu um sorriso para Schultz. Aquela conversa poderia ter sido curta, mas havia quebrado as primeiras impressões que cada um tinha do outro. Schultz imaginava Chen um antissocial, mas ele era apenas uma pessoa mais introspectiva, e incrivelmente inteligente. Já Chen achava Schultz um antipático, mas se surpreendeu ao ver que o alemão era uma pessoa muito melhor que ele poderia imaginar.

“Estou só no aguardo da ordem da Gongzhu. Ela já está vindo?”, perguntou Chen.

“Na verdade ainda não, ela está combinando as coisas com a Eunmi, Li, Chou, etc. Eu vim aqui apenas ver como estava o andamento das coisas que você tá fazendo, mas vou voltar lá e ver como está a situação! Com licença, Chen”, disse Schultz, se retirando da frente de Chen, que sorrindo novamente, confirmou com a cabeça. Chen era realmente muito simpático e bem mais bacana do que imaginava. O alemão então fez o caminho de volta de poucos metros até onde todas estavam reunidas, e viu Tsai descendo com Ho, enquanto Chou ficava ainda lá em cima, perto de Li que estava com seu rifle de atiradora de elite a postos, observando todo o movimento na rua.

“Vamos, Schultz”, disse Tsai, se aproximando de Schultz, “Vou deixar a Chou de olho no Yamada. E também a postos caso alguém precise de cuidados médicos. Vamos eu, você e a Ho invadir a casa e retirar Chou Xuefeng de lá”, nessa hora Tsai cruzou Schultz e seguiu em direção da casa que iriam invadir ao lado de Ho, enquanto Schultz continuava parado lá as observando. Tsai, ainda caminhando, se virou para Schultz e completou, dizendo o resto do planejamento: “Eunmi vai ficar na rua detrás. Li vai nos dar o suporte como atiradora de elite. Todos nós estaremos ligados nos rádios intercomunicadores no ouvido, deixe o seu ligado também”.

“Sim, princesa! Já estou indo!”, disse Schultz, acelerando o passo indo até Tsai.

“Ei, Schultz!”, disse Li, num tom alto, chamando Schultz lá de cima da casa, “Proteja a Gongzhu, viu! Mesmo que isso signifique sacrificar sua vida!”.

Schultz deu um riso ao ouvir e se virou para Li antes de responder:

“Ah, qual é, menina! Tá parecendo discurso de quem vai morrer em filme! Isso vai ser mais fácil que roubar doce de criança, daqui uns cinco minutos estamos de volta. Vê se fica de olho aí pra nos proteger!”, disse Schultz, voltando a acelerar o passo na direção de Tsai e Ho. Antes de entrar na casa viu Eunmi cruzando o quarteirão do outro lado, e bem nessa hora a coreana se virou e viu Schultz lá, perto da entrada. Ele fez um sinal de positivo com o polegar pra coreana que retribuiu, seguindo seu caminho. Todos estavam a postos.

“Pode arrombar a porta, Chen, por gentileza”, disse Tsai, via rádio. Chen se preparou pegando o gatilho do explosivo, “Lembrem-se: Chou Xuefeng deve ser capturado vivo a qualquer custo. Iniciando extração, agora!”.

E a explosão dilacerou a porta.

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Eunmi, já chegando na saída dos fundos da casa de Chou Xuefeng ouviu no rádio comunicador no seu ouvido a ordem de Tsai para começarem a missão. A explosão foi um pouco mais baixo que um rojão, era difícil pra ela imaginar que aquele barulho era capaz de destroçar uma porta, mas ao mesmo tempo era impossível de passar desapercebido, ainda mais no meio da noite.

Espero que isso não atraia japoneses aqui. Vamos ter sérios problemas se tivermos que proteger esse fotógrafo ao mesmo tempo que entramos em combate com soldados japoneses, pensou Eunmi. Ela esticou o pescoço e viu que não era possível ver o ponto em que Li estava, exceto alguns metros dali. Logo essa saída dos fundos da casa do chinês era um ponto cego para Li, que não tinha como saber se o chinês fugiria por ali.

Ao seu redor Eunmi via algumas casas, e ao prestar mais atenção via que, apesar de estarem as luzes desligadas, era possível ver os olhos brilhando de quem estava espiando de dentro o movimento na rua, refletindo as luzes da iluminação pública. A explosão chamou a atenção da vizinhança, mas o clima em Nanquim não era dos melhores. Pessoas tinham medo. Medo inclusive de espiar.

Eunmi de alguma forma passava mal naquela situação, uma vez que parecia que haviam tantas pessoas a observando. Mas nessas horas ela tentava voltar ao foco da missão. Sua missão era proteger aquele local, e pegar Chou Xuefeng caso ele tentasse fugir.

“Ei, Eunmi-ya! Eunmi-ya!”, disse uma voz masculina atrás dela. Ao se virar viu que a alguns metros dali havia uma pessoa. Ao se aproximar, teve uma péssima surpresa. Era seu primo, Jin-su. Novamente.

“Eu já disse pra me deixar em paz, Jin-su!”, disse Eunmi, impaciente.

“Eunmi-ya, vem aqui, vamos conversar! Desliga esse comunicador, rapidinho, vem!”, disse Jin-su, apontando pro ouvido. Mais tarde, enquanto refletia as consequências dessa escolha, ela relembrou que nesse momento ela não tinha a intenção de dar ouvidos ao que Jin-su queria falar. Deixaria ele falando ali, ou daria algum golpe para apaga-lo. Jin-su, apesar de ser da sua família, havia feito algo que ela jamais conseguiria perdoar. Essa proposta de irem morar no Japão a custo de sua identidade tinha feito ela se sentir profundamente indignada. Ela apenas se aproximou de Jin-su depois que ele, ao ver que ela não chegaria perto dele de forma alguma, disse as seguintes palavras: “Eu te devo desculpas!”.

“Desculpas?”, disse Eunmi, tirando o fone do ouvido e desligando seu comunicador, “Ainda bem que você desistiu dessa loucura de ir morar no Japão e virar japonês!”.

Mas Jin-su baixou a cabeça e balançou negativamente. Eunmi não podia acreditar no que ele falaria a seguir.

“Não, Eunmi, eu não desisti de ir morar no Japão. Eu vim exatamente pedir desculpas por ter sido grosso com você antes, mas não vim pedir desculpas por ter proposto você ir comigo e termos uma nova vida no Japão”

“Eu não acredito! Você ainda insiste nisso?”.

“Eunmi, por favor venha comigo! Larga tudo, deixa eles se virarem aí, eles não te devem nada! De manhã vamos cruzar o mar até o Japão, temos uma casa garantida, um emprego, uma nova vida! Que se explodam essas coisas de honra que você tem, a gente tem é que pensar na nossa sobrevivência em primeiro lugar! A vida real não tem espaço pra sonhos ou utopias!”.

“Eu já te disse que eu não vou, Jin-su! Se quiser ir, vá sozinho! Eu tenho uma missão, faço parte de um grupo que não quer suprimir quem eu sou. Querem me ajudar, e eu quero ajuda-los em troca também! Essas pessoas me inspiram todos os dias para que eu dê meu melhor! Não desperdice seu tempo, nem o meu tempo tentando me convencer de algo que eu jamais aceitarei!”.

Mas nessa hora Jin-su avançou e segurou no braço de Eunmi. Ao olhar sua expressão Eunmi viu que ele não tinha raiva. Até que não estava apertando. Era uma abordagem diferente, mas ao mesmo tempo igual do que ele havia feito. Ela podia ver o clamor nos olhos dele. E talvez por um segundo ela teve dúvida. Será que não seria melhor ir para o Japão e ter uma nova vida lá, do que morrer como uma coreana por ter desafiado o exército japonês que os havia conquistado?

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Tsai, Schultz e Ho entraram na casa. A casa de Chou Xuefeng era pequena e não tinha nenhum andar superior. Em segundos poderia ser completamente vista e checada, então Tsai apontou para Ho e Schultz irem para a cozinha e pra sala, respectivamente, enquanto ela ia direto no quarto dele.

Chen os esperava do lado de fora, prestando atenção no movimento da rua, junto de Li que estava de olho em tudo através do visor do seu rifle de atirador de elite.

Tá tudo calmo. Calmo até demais, disse Schultz enquanto verificava a sala. Tinham algumas fotografias espalhadas em quadros ao redor, mas não era possível descrever com exatidão por conta da escuridão. A parca luz que vinha da janela iluminava muito mal o local, mas ainda assim era possível ver que não havia ninguém lá. O cômodo estava limpo.

Ho também viu que apesar da louça para lavar, tudo parecia bem. Um pouco de comida nas panelas, e ao abrir ela viu que era arroz. Talvez o fotografo era mais do sul da China, onde eles tinham mais o costume do comer arroz, ao contrário do norte que usualmente preferem macarrão. A cozinha era iluminada por um lampião, aparentemente ligado para caso o chinês precisasse pegar algo na cozinha na noite. Mas ao verificar nos cantos, Ho percebeu que o local também estava limpo.

Tsai então entrou no quarto, sem fazer barulho. Caminhando lentamente, viu que a cama estava desarrumada, e era possível distinguir um volume debaixo das cobertas. Fazia frio, era sensato estar tão coberto assim.

“Alvo localizado, ele está aqui. Estou me aproximando”, disse Tsai, via rádio, para todos ouvirem.

Com sua pistola em punhos, a Gongzhu foi se aproximando passo a passo. Colocou a mão no cobertor e sentiu algo estranho nos seus dedos. Não teve muito tempo para pensar. Puxou o cobertor para revelar quem estava debaixo daquilo.

Tsai tomou um susto enorme nesse momento.

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Momentos antes de Tsai entrar no quarto de Chou Xuefeng, Li continuava de olho nos arredores. Estava de noite, e obviamente eles não tinham condições de terem escopos de visão noturna, uma novidade militar da época. Mas ainda assim dificilmente algo escaparia da visão aguçada e treinada de Li.

Na rua da frente era possível ver que não havia nenhum movimento. Estava deserta. Conforme Li ia virando o escopo pra observar toda a extensão da rua, percebeu ao longe um movimento na rua de trás. Por conta da escuridão, era possível ver apenas quando o vulto era iluminado pelas luzes do postes. O que uma pessoa fazia tarde da noite ali?

Ao aproximar o visor do vulto percebera que na verdade não era uma pessoa. Eram duas. Era possível ver que havia uma pessoa atrás de outra, caminhando na calçada, olhando para trás enquanto empurrava a pessoa na frente, que parecia estar em seu domínio. Não era possível distinguir rostos, menos ainda feições, e Li não poderia arriscar um tiro. Pois nesse momento ela pensou o óbvio: poderia ser Chou Xuefeng sendo sequestrado!

“Eunmi, Eunmi! Tem uma pessoa suspeita na rua onde você está!”, disse Li no intercomunicador, “Eunmi, Eunmi, pode ir lá verificar? Parece que é um refém!”.

Passou alguns segundos, mas não ouviu o retorno de Eunmi. Os dois vultos continuavam caminhando na rua detrás da casa, que devia ser guardada pela coreana, e cada vez mais se distanciavam do campo de visão de Li.

“Eunmi!! Eunmi!! Pessoa suspeita na sua rua!! Vai atrás deles!! Você tá me ouvindo, Eunmi?!”, repetiu Li no comunicador, mas não obteve resposta de Eunmi.

Ao virar o escopo para onde estava a coreana, viu que ela estava perto de uma viela, e gesticulando, parecia conversar com alguém. Mas ela não conseguia ver, pois a parede escondia a pessoa. Exceto um braço que segurava Eunmi, que estava de costas, sem prestar atenção nos vultos que andavam na rua logo atrás dela.

Li pegou uma lanterna e começou a piscar em direção de Eunmi, chamando sua atenção.

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“Eunmi-ya, vamos comigo pro Japão. Podemos trazer seus pais depois também. Teremos honra, um lar, sustento e uma vida segura como japoneses! Por favor! Eu só estou pensando no seu próprio bem!”, disse Jin-su, com um olhar clemente e cheio de esperanças. Aquilo confundiu Eunmi, é verdade. Mas essa confusão foi apenas por um segundo.

Ela então baixou sua cabeça e balançou, negando aquilo tudo. Voltou seu olhar para Jin-su. Um olhar firme, inabalável, que esbanjava uma determinação que falava por si só. Um olhar que foi como um ultimato para Jin-su, seguido pelo que ela iria dizer:

“Eu cheguei muito longe pra aceitar isso, Jin-su. Não irei. Se você quiser se juntar a mim, as portas estão abertas”, disse Eunmi, gentilmente tirando a mão de Jin-su que segurava seu braço, “Mas não irei aceitar isso. Não irei aceitar uma vida tranquila. Isso é o caminho fácil. E mesmo que eu morra tentando, quero tentar o caminho difícil, pois só assim conseguirei colocar minha cabeça no travesseiro a noite e ter um sono tranquilo, com a certeza de que eu ao menos tentei. Ir para o Japão, abandonar tudo sem tentar depois de tudo o que passei é como estar a poucos metros do cume da montanha e desistir da escalada. Não vou desistir. Não agora, sinto muito”.

As palavras foram ouvidas por Jin-su. Fechou os olhos por alguns segundos, tentando processar aquilo tudo. Ao abrir os olhos seu rosto ficou desfigurado pela raiva, completamente enfurecido, sobrancelhas arqueadas, mordendo os lábios e as rugas saltando às vistas. Não tinha nada a ver com a expressão serena de segundos atrás:

“Então não venha chorar depois, sua vaca imunda. Vai pra puta que o pariu, espero que arda no inferno, sua desgraçada. Você vai sofrer as consequências da sua escolha, não perde por esperar, sua puta desgraçada!”, esbravejou Jin-su, agarrando forte no braço de Eunmi e a puxando com violência: “Vem logo comigo, larga dessa merda!”.

Jin-su puxou Eunmi com força, que ainda estava assustada com toda aquela cena inusitada que o primo estava fazendo. Como era possível mudar a expressão de tamanha forma assim, subitamente? Era assustador e inacreditável. Jin-su apertava seu braço a ponto de doer, e a puxava com violência para dentro da viela, e Eunmi viu que só havia uma chance dela escapar daquilo.

“Me solta!! Jin-su, me solta agora!!”, pedia Eunmi, mas eram pedidos em vão. Jin-su sequer se virou para olhar pra ela. Só havia uma opção então. Eunmi fechou o punho e deu um potente golpe na cara de Jin-su quando ele se virou para encara-la. Instantaneamente ele a soltou, levando as mãos ao nariz, caindo no chão aos gritos. Eunmi se desiquilibrou um pouco, mas rapidamente retomou sua posição. Virou as costas pra ele e saiu correndo de volta para rua que ela devia guardar, e nesse momento viu algo que lhe chamou a atenção:

Uma luz, vindo do local onde Li estava, brilhando na sua direção. Ela se lembrou que estava sem o fone de ouvido e o colocou de volta. Foi então que reconheceu a voz de Li do outro lado.

“Eunmi!! Finalmente!! Rápido, tem duas pessoas cruzando a esquina lá na frente, corre lá e vai atrás deles!!”, ordenou Li, e Eunmi fez isso. Começou a correr desesperadamente atrás das duas pessoas que já estavam a muitos metros dela.

Mas quando ela passou pelos fundos da casa de Chou Xuefeng tomou um grande susto. Ouviu um mesmo grito, idêntico, sendo possível captar do rádio comunicador, como também de dentro da casa do fotógrafo chinês. Era a voz de Tsai. Mesmo depois de ouvir ela já não conseguia parar. A culpa de alguma forma a preenchia, por ter prestado tanta atenção nas asneiras do seu primo e não na missão que se desenrolava logo ali na sua frente. Mas o que Tsai havia berrado era realmente algo extremamente preocupante. Aquela cena, e o que veio a seguir, ficou gravada em sua mente como uma lembrança de profundo pânico e desespero:

“EMBOSCADA!! É UMA EMBOSCADA!!”, gritou Tsai.

Segundos depois do seu aviso uma explosão enorme se seguiu na casa de Chou Xuefeng, lançando detritos no ar e uma onda de choque imensa, quebrando casas na vizinhança no meio daquela imensa bola de fogo que subia aos céus. Eunmi continuava correndo, e nesse momento as duas pessoas que ela perseguia, os vultos que Li havia reconhecido, perceberam a explosão e que havia alguém muito próximo deles os seguindo e começaram a correr.

Entraram no primeiro beco à direita, com Eunmi correndo logo atrás. Na hora da curva Eunmi conseguiu ver o rosto do homem que estava sendo empurrado na frente, sem dúvidas era Chou Xuefeng. Ela virou no beco e continuou os seguindo, cada vez mais se aproximando, graças aos treinamentos de aptidão física que havia feito com Tsai. Quando a luz do poste os iluminou, Eunmi percebeu que o homem que estava atrás, sequestrando o da frente, virou o rosto e ela naquele momento viu o sequestrador.

Seu coração pareceu por um momento parar de susto quando viu quem era.

Era o mesmo homem loiro que, semanas atrás, havia mandado ela ir até a Alemanha atrás de Schultz, para que ele a pudesse ajudar na vingança pelo assassinato do seu noivo.

domingo, 26 de novembro de 2017

O casamento do meu primo.

Ontem meu primo enfim se casou! Parabéns, Lucas e Taylinne (que agora, pela lei matrimonial, é minha prima também, haha), mas muitas coisas aconteceram. Acho que coisas mais internas do que necessariamente coisas externas.

Dessa geração, eu sou o mais velho. E claro que se chegassem em mim com meus dez, onze, doze anos e perguntassem quem se casaria primeiro, obviamente eu na época responderia que seria eu. O Lucas é o segundo da minha geração, eu sou dois anos mais velho que ele. Eu não acompanhei os preparativos de perto, mas sempre quando ouvia a quantidade de grana, tempo e estresse que estavam empenhando na realização desse matrimônio, era até que assustador de certa maneira.

Mas enfim, aconteceu! Acho que todo casamento é a mesma coisa. Não importa se seja algo simples, se é algo complexo, sempre é bacana ver a coisa acontecendo. A cerimônia foi bem bonita, num sítio, nem tão longe de casa (e eu ainda acho injusto quando pessoas dizem que eu moro na "área rural" de São Paulo, mas nessas horas até que faz sentido...), e, como sempre, pedem pra gente chegar num horário e a coisa só acontece horas depois.

Acho que chegamos lá umas 17h, e a cerimônia só começou às 18h30. Mas até que foi relativamente pontual, vai. Já vi casos piores. Meus pais foram padrinhos de casamento do meu primo, e foi bem emocionante ver a Tay de vestido, imagino que deve ter sido pro Lucas também! Normalmente sempre essa procissão da noiva é a coisa mais bacana do mundo, e não foi diferente.

O mestre cerimonial, aliás, fez umas coisas bem legais. Quero copiar no meu casamento, hehe. Ele trouxe um baú, com vinho e duas taças, e pediu pra cada padrinho e madrinha escrever uma carta pra ser colocada nesse baú, que seria trancado, e a chave ficaria nas mãos da mãe da noiva. Daqui a cinco anos abririam esse baú, beberiam o vinho, e reviveriam esse dia de ontem. E por ser de madeira, simbolizaria as bodas de madeira, que corresponde a cinco anos de casado.

(ainda bem que o baú não era de carvalho... hahaha!)

Foi bem bonito os votos que tanto o Lucas quanto a Tay escreveram. E depois na festa eu perguntei se foram eles que escreveram, eles disseram que sim! Esse povo é todo poético, hehe. Mas foi tudo muito bem jeitinho, bem planejado e bem executado. O buffet também estava excelente, e a festa depois foi muito boa também.

Mas eu não pude deixar de pensar nos caminhos que a vida toma. Eu tenho muita dificuldade em ver que o tempo vai passando. Não consigo ver com desespero, ao menos não sempre, que cada vez mais aqueles tempos de infância vão ficando mais e mais distantes. E claro, nunca se sabe o dia de amanhã, vai que eventualmente cruzo o caminho com "a mãe dos meus filhos", mas no meio da festa eu parei pra pensar que "nossa, o Lucas tá se casando! Isso parecia algo tão distante, e olha eu aqui!".

O que existem são as circunstâncias da vida também. Não que eu tenha pressa, ou esteja desesperado, na verdade o esquema foi ver como o tempo passou, e como ainda tem muita coisa pela frente. Pra todos nós. E ver o casamento do Lucas assim tão de perto me deu um pouco de interesse ainda mais pelo que está por vir. ;)

I ain't seen nothing yet!

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Amber #92 - 위안부 (Wianbu)

12 de novembro de 1939
09h08

“Uau. Quando me falaram que o ‘estupro de Nanquim’ havia acontecido aqui, eu pensei que a cidade inteira estaria um caos. Mas até que ela está inteira”, disse Schultz, ao olhar ao seu redor. Já havia meia hora que haviam entrado na cidade, andando entre as pessoas, com os rostos escondidos sobre chapéus e roupas simples ocidentais, para não chamarem a atenção.

“Depois que Xangai caiu, Nanquim foi praticamente entregue de bandeja pro exército japonês, já que as duas cidades são bem próximas uma da outra”, explicou Tsai. Sua voz tinha um peso triste.

Nanquim parecia estar vivendo uma vida comum. O bairro comercial que eles caminhavam fervilhava de gente, todos andavam no meio das pessoas desviando para não trombarem com os moradores locais. Haviam soldados japoneses praticamente a cada esquina, e a língua japonesa se confundia com a língua chinesa nas bocas das pessoas. Parecia que a China estava caminhando para uma “japonização” em massa, mas ainda pareciam ser os primeiros passos da supressão cultural e de costumes chineses sendo substituídos pelos valores e organização social nipônica.

Tsai apontou para os dois entrarem num edifício que parecia uma galeria. Haviam algumas mesas em um átrio central, e ela apontou para que todos se sentassem ali ao redor. Tsai ficou na mesma mesa junto de Schultz, Li e Chou. Mas nas mesas vizinhas ficaram o resto das pessoas, e cada um cuidaria da segurança de todos ao mesmo tempo, de olho em tudo ao redor.

“Um veterano meu me contou coisas horríveis que aconteceram aqui”, disse Yamada, com um tom de voz encabulado, “Parece que amarraram um chinês pelos braços e pernas em dois postes, e uns 50 soldados fizeram fila com suas baionetas para empala-lo”, todos viraram o rosto para baixo, ou desviaram o olhar, como se imaginar aquela cena por si já fosse algo horrível. Tsai, no entanto, ficou ainda encarando Yamada ouvindo o resto da estória dele, que prosseguiu: “Esse veterano me contou que esse chinês não morreu tão rápido, pois as pessoas simplesmente não acertavam no ‘local certo’ dele. O pobre chinês gritava pedindo para irem logo, pois no meio de toda aquela dor ele só queria morrer logo”, ao dizer isso até Tsai baixou o rosto e levou sua mão na testa sem acreditar. Yamada então concluiu: “Esse meu veterano me disse que a baioneta o furava como se fosse tofu”.

“Por deus...”, disse Tsai, balançando a cabeça e tentando esquecer essa cena que surgiu na sua imaginação. Como os japoneses conseguiam ser tão cruéis? Como poderia haver tanta crueldade de um ser humano contra outro?

“Japoneses se colocam como membros de uma raça divina descendente dos deuses”, disse Ho, com total asco em sua fala ao se referir ao povo nipônico, “Já chineses estão abaixo dos porcos”.

Tsai estava abrindo um mapa de Nanquim que ela havia riscado com um círculo vermelho onde é a casa de Chou Xuefeng. Olhando para as placas ao redor ela tentava se guiar para saber onde mais ou menos estava. Schultz deu uma espiada no mapa, mas viu caracteres que não entendia no meio de caracteres chineses que entendia o sentido. Logo ele viu que Tsai já tinha em mãos um mapa em japonês de Nanquim.

“Sabe, eu não consigo ver como as pessoas podem ser tão cegas! Aquele imperador idiota seguindo aquele manual sem pé nem cabeça”, disse Yamada. Ao dizer ‘manual’, Li e Chou se viraram pra ele, enquanto Tsai e Schultz olhavam no mapa para se localizarem.

“Manual? É isso que você disse?”, perguntou Li.

“É. Se chama ‘Memorial de Tanaka’. É uma merda escrita por um barão japonês, como se fosse um manual pro imperador Hirohito para leva-lo direto à conquista mundial. A China é apenas o primeiro passo. O Japão quer dominar totalmente o Pacífico, chegando até a Austrália, de norte a sul. Sabe uma coisa que poderia para-los? A União Soviética. Mas parece que eles estão muito ocupados do outro lado brincando de dominar o mundo de mãos dadas com os nazistas”, disse Yamada, com muita indignação. Ele dizia com um tom profundo de desabafo, como se não aguentasse ver o que todos negavam querer enxergar no seu país.

Eunmi viu do outro lado, atrás de Schultz, uma casa no meio da galeria que não tinha cara de loja. Dois soldados e um homem saíram dessa construção. Eles estavam todos sorridentes, e era possível ver que estavam arfando, por conta do vapor que saía das suas respirações. Yamada continuava conversando com eles enquanto Tsai e Schultz estavam verificando o mapa na mesa. Eunmi não estava prestando atenção na conversa paralela deles, e tinha dificuldade em ver o que estava escrito na placa acima da edificação que ela viu aquelas três pessoas saindo.

“Chou, você consegue ver o que está escrito naquela placa perto da entrada de onde estão aqueles dois soldados japoneses?”, perguntou Eunmi para Chou, que estava mais perto e talvez teria uma visão melhor.

“Sim, consigo ver sim, espera aí...”, disse Chou, aguçando sua vista, “Wei... An... Fu, e não sei o quê do Império Japonês”.

Eunmi arregalou os olhos. Ficou em silêncio, quase que chocada. Não conseguia acreditar no que estava escrito na placa. Tsai, que estava debruçada sobre o mapa também ergueu a cabeça ao ouvir as palavras ditas por Chou. Schultz percebeu isso, mas não prestou atenção no que Chou havia dito, segundos antes, então não sabia exatamente do que estavam falando. Todos estavam tensos, mas Eunmi estava mais. Não imaginavam que encontrariam um local daqueles assim, no meio de Nanquim, em um centro comercial.

“Não, não me diga que você leu isso. É ‘wianbu’? ‘Wianbu’?”, disse Eunmi, elevando o tom de voz. Seus olhos estavam tomados pela indignação, ela não queria acreditar no que havia acabado de ouvir. Mas a expressão de todos os chineses era de raiva contida, olhando pros lados, desviando de Eunmi, que ficava repetindo: “Wianbu? Me diga!! Tsai!! Aquele é um edifício dedicado a isso?”.

“Ei, dá pra alguém me explicar o que tá acontecendo? Não tô entendendo nada, cacete!”, disse Schultz, ficando incomodado com a euforia de Eunmi.

Foi Tsai quem virou pra Eunmi e manteve seus olhos focados nela. Ninguém estava querendo dizer a verdade pra ela. E Schultz não conseguia entender nada do que todos falavam ali. Tsai viu que teria que ser ninguém menos que ela pra falar o que Eunmi menos queria ouvir.

“Sim, Eunmi. Em coreano é exatamente o que você tá pensando. É uma casa de wianbu”, disse Tsai, com pesar na sua voz. Eunmi nessa hora ficou completamente indignada. Se ergueu da mesa e colocou a mão na testa, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Ela olhava pra todos os lados, caminhava de um lado para outro, e olhava com nojo para aqueles dois oficiais do exército e o homem que estava ao lado deles. Eunmi se separou do grupo, e Schultz se ergueu para ir atrás dela, mas Tsai colocou a mão no braço do alemão, o segurando, “Não, deixa ela ir. Ela precisa tomar um ar”.

“Eu realmente não estou entendendo o que tá acontecendo? O que é aquele lugar?”, perguntou Schultz, também quase perdendo a paciência.

“Em japonês falamos ‘ianfu’. Se traduz algo como ‘mulheres de conforto’”, disse Yamada, engolindo seco.

“Um prostíbulo? Qual é o problema? Todo lugar tem! Ela nunca viu um?”, perguntou Schultz, ainda tentando compreender.

“O termo ‘ianfu’ é um eufemismo japonês pra prostitutas, mas o que elas fazem lá é a última coisa que podemos chamar de prostituição”, disse Yamada, com uma expressão abalada, com vergonha de admitir que poderia existir um local como esse, “São escravas sexuais pro exército japonês. Chinesas capturadas que são constantemente mantidas nesses locais e sempre são estupradas e abusadas por oficiais japoneses. Mulheres, crianças, velhas, adolescentes. Não veem a luz do sol, pouca comida, vida inóspita. E sem contar que muitas são mortas e torturadas sem motivo, como se passar pelo resto das coisas não fosse humilhante e deteriorante o suficiente”.

“Minha nossa. Isso é... Inacreditável”, disse Schultz, se sentando na cadeira. Ele não sabia mais o que dizer. Entendeu enfim o porquê do silêncio dominando o clima depois da pergunta de Eunmi. Ao virar o rosto buscando a coreana, Schultz viu ela virando a esquina, a perdendo de vista. É verdade que qualquer pessoa ao saber que existia um local desses ficaria no mínimo desconsertado. Mas o jeito que Eunmi havia reagido era muito além do esperado. Com certeza havia alguma coisa.

Eunmi, por outro lado, estava inconsolável. Seus olhos derrubavam lágrimas e mais lágrimas enquanto ela andava na rua, dando a volta na esquina. Nem ela tinha noção mais do tempo. Muitas coisas passavam na sua cabeça, e as pessoas na rua ficavam surpresas ao ver aquela mulher que andava entre eles em prantos, esbarrando nas pessoas, como se fugisse de algo.

Foi aí que Eunmi acabou vendo do outro lado da rua os dois oficiais japoneses e o civil junto deles. Na hora que os reconheceu suas lágrimas começaram a secar. E aquela visão embaçada foi enfim se tornando mais e mais nítida. Ela queria ver quem eram aqueles resquícios de merda humana. Ela queria olhar nos olhos daqueles homens que faziam tão pouco de uma mulher, de um ser humano, que abusavam e estupravam pois se achavam no direito de fazer isso. Ela queria gravar na sua mente o rosto deles e prometia no fundo seu coração que iria atrás deles, e não desistiria até que os fizesse passar por coisas dez vezes pior do que haviam feito as pobres mulheres passarem naquele local. Primeiro viu o rosto do primeiro oficial, e depois o do segundo, guardando a feição. Mas quando viu o rosto do civil, não acreditou. Esfregou os olhos como se tentasse limpar os restos de lágrimas dos olhos para ver se conseguiria distingui-lo melhor, mas acabou confirmando o que suspeitava. Não adiantava de forma alguma tentar memorizar os rostos os japoneses do exército, pois o rosto do terceiro a deixou muito mais chocada do que ela poderia imaginar.

Era ninguém menos que seu primo, Jin-su.

Eunmi o reconheceu, mas era tarde, ele a havia visto. Ele cumprimentou os soldados e foi caminhando em direção de Eunmi, pedindo para ela esperar. Talvez esse seria o melhor momento para sair de lá, mas Eunmi estava tão em choque que não conseguia acreditar que era justamente ele.

“Eunmi-ya? Eunmi-ya?”, disse Jin-su enquanto se aproximava dela, “Minha nossa, não acredito! Você está viva?”.

Eunmi estava apoiada na parede, e viu a mão do seu primo ser colocada no seu ombro, e ficou encarando aquilo, aparentando que não estava prestando atenção no que ele dizia. Uma enxurrada de memórias apareceu na sua mente, e em destaque a lembrança do primeiro encontro com Tsai. A carroça, o chinês que as levou, a arma e o fato dele ter estar as buscando, como se quisesse matar ela e Schultz.

Obviamente toda a carona até Changsha na época foi arranjada justamente por Jin-su. Tudo subitamente fez sentido.

“O que quer dizer perguntando se estou viva?”, disse Eunmi, tirando a mão dele do seu ombro, “Estava esperando que eu estivesse morta, ou algo do gênero?”.

“Não diga uma coisa dessas, Eunmi-ya! Esse país está um caos! Quando não são os japoneses matando e torturando chineses, são o pessoal do Kuomintang querendo matar os comunistas. Sobreviver no meio dessa bagunça é uma vitória que celebramos todos os dias!”, disse Jin-su.

Eunmi tinha muitas perguntas. Mas estava tão chocada, que seu lado humano falou mais alto. Queria levar Jin-su para Tsai, mas esse não era o objetivo. Seu primo e o que ele fazia naquela casa das mulheres de conforto era algo particular que ela devia resolver. Ficou encarando Jin-su, querendo apontar o dedo pra ele e falar um monte, mas a coreana não conseguia. Apenas mantinha seus olhos cerrados olhando fixamente para seu primo, que vendo que ela não falaria nada, continuou conversando:

“Por onde você andou? Você parece mais forte, Eunmi-ya”, disse Jin-su, apertando com os dedos o braço dela, sentindo seus músculos, “O que você andou fazendo?”

“Não toca em mim”, disse Eunmi, puxando seu braço.

“Não me diga que você se juntou com aqueles chineses?”, perguntou Jin-su. Eunmi não respondeu nada, ficou calada ainda o encarando, e Jin-su interpretou isso como uma confirmação, “Eles devem ter feito uma lavagem cerebral em você, Eunmi! Me diga, onde eles estão? Vai, me diga!”.

“Não vou dizer nada, me deixa em paz!”, disse Eunmi, empurrando Jin-su, que tomou um susto ao ver a força da garota. Não era mais a frágil priminha de outrora.

“Eunmi-ya, me escuta!”, disse Jin-su, se colocando na frente dela. Eunmi virou o rosto, evitando seu olhar, mas o coreano era insistente, “Olha, não quero saber se você está envolvida em algum grupo ou algo do gênero. Não precisa me dizer nada sobre isso também, apenas me escuta”, nessa hora Eunmi virou o olhar pra ele, ainda na defensiva, tentando tirar ele da sua frente, “Olha, eu tenho uns contatos aí, uns japoneses vão nos conseguir uma nova vida no Japão! Vamos poder recomeçar lá, com um sobrenome japonês, e tudo mais! Vamos ter de volta nossa dignidade, Eunmi! Vamos deixar essa coisa ingrata que é ser coreano e vamos nos tornar cidadãos japoneses!”.

Aquilo deixou Eunmi profundamente ofendida. Era visível em seu rosto.

“Jin-su, como você ousa me propor uma coisa dessas? Eu tenho orgulho de quem eu sou! Eu não sou japonesa! Nós somos coreanos, um país milenar, com história, cultura, etnia, e um povo único que está nesse momento sofrendo na mão de japoneses! Você deveria ser a última pessoa a me propor uma insanidade dessas!”, disse Eunmi, indignada.

“Eunmi-ya, estou pensando em nossa sobrevivência! A gente tem é que sobreviver! Ser coreano nunca nos trouxe nada, exceto desgraça. Nossa língua, nossa história, nossa cultura, serão todos substituídos pela japonesa, e eu não pensaria duas vezes se isso significasse sobreviver!”, disse Jin-su, que começou a elevar a sua voz pra tentar ser ainda mais incisivo ao falar com Eunmi, “Pare de viver esse sonho, Eunmi! A Coréia nunca vai ser livre, vamos ficar pra sempre sob domínio japonês, quanto antes nos adaptarmos, mais longe conseguiremos sobreviver!”.

“Jamais, Jin-su! Eu prefiro morrer lutando para ter meu país de volta, sem domínio japonês, chinês, nem de ninguém, do que entregar e perder tudo o que significa pra mim, tudo o que amo, tudo o que me faz ser quem eu sou!”, disse Eunmi, dando um novo empurrão em Jin-su, e virando as costas pra ele, caminhando de volta pra onde estava Tsai e os outros.

“Eunmi. Essa sua escolha pode ter graves consequências. Você tem certeza que essa é a sua decisão final?”, perguntou Jin-su, num tom ameaçador.

Eunmi apenas virou o rosto e o encarou de lado. Seu rosto tinha um misto de raiva com tristeza. Não acreditava que uma pessoa poderia se vender por tão pouco. E menos ainda que seria alguém como seu primo, que ela tanto amou.

A guerra muda as pessoas. Não dá pra se negar que existiam muitas pessoas que tinham o mesmo pensamento de Jin-su. Pessoas com medo, pessoas com incerteza. Pessoas que trocariam o sonho de um futuro livre, para viver numa mentira enclausurada. Era assim que Eunmi via seu primo. Mas não havia nada que ela poderia fazer. Era a decisão dele. E ela trilharia sua verdade, não importasse as consequências disso.

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21h28

“Ele acabou de entrar, Gongzhu”, disse Li, ao ver Chou Xuefeng entrando em sua casa.

O pelotão de Tsai invadiram uma casa abandonada na mesma quadra do local onde Chou Xuefeng morava. Durante o dia inteiro ficaram observando todos os movimentos do local: as vezes que Chou saía de casa, as pessoas que encontrava, o que era possível ver através do visor do rifle de Li do que ele fazia dentro de casa, tudo. Conforme adentravam na noite, menor o movimento era nas ruas. O clima estava propício para fazerem enfim o que haviam planejado.

“Gongzhu, os soldados que estavam fazendo ronda duas quadras daqui já foram embora. O arredor está limpo”, disse Ho, fazendo o relatório à Gongzhu.

“Ótimo. Acho que podemos seguir em frente e invadir”, disse Tsai, se voltando para todos, “Lembrem-se que o objetivo é que Chou fique vivo. Eu entrarei na casa com Schultz, e Chou. Eunmi quero que você vigie os fundos da casa, Ho e Chen ficam na parte da frente para nos dar apoio. Li, fique como batedora se olho em qualquer coisa. Yamada fica aqui dando suporte a ela. Não hesite em abater se acreditar que é uma ameaça”.

Todos confirmaram, até que com uma certa euforia. A captura de Chou Xuefeng seria rápida e fácil.

Pelo menos era isso que todos imaginavam...

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